‘De processo em processo, a festa virou marcha fúnebre’, diz jornalista alagoana sobre pressão à imprensa
Radicada em São Paulo, Wanessa Wanderley publica vídeo às vésperas da eleição, critica o uso da Justiça contra comunicadores e faz duro alerta aos jornalistas alagoanos
A jornalista alagoana Vanessa Wanderley, que atualmente mora em São Paulo, publicou nas redes sociais um duro desabafo sobre o ambiente enfrentado por jornalistas e veículos de comunicação em Alagoas nesta reta final da campanha eleitoral.
A manifestação foi feita neste sábado (3), véspera do primeiro turno das eleições, marcado para este domingo, 4 de outubro, quando os brasileiros escolherão presidente, governadores, senadores e deputados.
Usando a eleição como metáfora de uma grande “festa” realizada a cada dois anos, Vanessa afirmou que, em Alagoas, o ambiente deixou de ser festivo para uma parcela dos profissionais da comunicação.
“Só que em Alagoas essa festa não tá lá muito agradável para uma categoria de profissionais, não. Então, eu sou jornalista e meu compromisso é simplesmente em comunicar a verdade.”
Sem citar nominalmente, no trecho divulgado, o político a quem dirige suas críticas, Vanessa recorre a expressões como “jovem cacique”, “playboy coronel” e “playboizinho” para questionar o que considera uma ofensiva judicial contra jornalistas e veículos de comunicação.
O recado mais direto foi dirigido aos próprios profissionais da área.
“Aí minha pergunta vai pra você, comunicador: você quer mesmo ter a sua profissão, o seu trabalho censurado por um playboy sustentado à verba de ambulância?”
A expressão e a acusação são de responsabilidade da própria jornalista, apresentadas no vídeo como parte de sua crítica política.
“Corpo jurídico contra a imprensa”
Vanessa também relacionou sua manifestação a escândalos políticos e financeiros que vêm ocupando o noticiário e acusou o personagem de sua crítica de mobilizar advogados para reagir às publicações da imprensa.
“Um certo playboy coronel tá muito desesperado com isso, a ponto de movimentar o seu corpo jurídico contra a imprensa como se fosse uma escola de samba, fazendo muito barulho”, afirmou.
Para ela, esse “barulho” estaria se materializando por meio de decisões judiciais contra conteúdos jornalísticos.
“E esse barulho todo tá vindo em forma de censura.”
A manifestação acontece num momento em que decisões da Justiça Eleitoral envolvendo conteúdos publicados por veículos e perfis de Alagoas vêm provocando intenso debate sobre os limites entre liberdade de imprensa,
propaganda eleitoral e proteção à honra.
Em setembro, por exemplo, uma decisão determinou que a Tribuna do Sertão retirasse conteúdo sobre documentos relacionados ao caso Iprev/Banco Master e recolhesse exemplares de uma edição impressa. A Associação Nacional de Jornais (ANJ), segundo reportagem publicada sobre o episódio, criticou a medida e a classificou como censura.
Em outros processos, porém, o próprio TRE-AL tem sustentado que a liberdade de imprensa não protege publicações que, no entendimento judicial, extrapolem a atividade informativa e apresentem acusações sem respaldo mínimo. Em decisão de 5 de setembro, o tribunal também ressaltou que eventuais intervenções devem ser pontuais e que não cabe censura prévia a futuras manifestações lícitas.
“A imprensa alagoana vem sendo atacada”
Vanessa amplia a crítica e afirma que o problema deixou de atingir apenas veículos isoladamente.
“A imprensa alagoana vem sendo atacada por fazer simplesmente o seu trabalho, comunicar a verdade.”
Na sequência, a jornalista usa uma das imagens mais fortes do vídeo. Retomando a metáfora da eleição como uma festa democrática, afirma que a sucessão de processos estaria mudando completamente o ambiente.
“De processo em processo, o Playboy vem transformando essa festa numa verdadeira marcha fúnebre.”
A fala termina com outra metáfora.
Para Vanessa, as consequências do que acontece durante uma campanha eleitoral não ficam restritas a candidatos, partidos ou jornalistas. Depois da votação, diz ela, toda a sociedade convive com o resultado das escolhas feitas nas urnas.
“E sabe o que é pior? No fim da festa, todo mundo é obrigado a comer uma fatia do bolo”, afirma.
E conclui:
“Esse bolo vai vir estragado, amargo e completamente intragável. E olha, não melhora se botar glacê.”
A manifestação de Vanessa Wanderley coloca no centro da reta final eleitoral um tema que extrapola a disputa entre candidaturas: até onde podem ir as ações judiciais contra jornalistas, veículos e conteúdos políticos sem comprometer o exercício da liberdade de imprensa e o direito da sociedade à informação.