O homem da capa preta era daqui: a história do alagoano que fez história no Rio de Janeiro
Em 27 de setembro completam-se 120 anos do nascimento, em Palmeira dos Índios, de Tenório Cavalcanti. Antes da capa preta, da “Lurdinha” e das multidões da Baixada Fluminense, existiu um menino do Agreste alagoano que atravessaria o país com uma trajetória marcada na história
Antes da capa preta, antes da metralhadora Lurdinha, antes das multidões, dos quatro mandatos de deputado federal e das manchetes dos grandes jornais brasileiros, havia um menino nascido no interior de Alagoas.
Seu nome completo era Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque. Nasceu em 27 de setembro de 1906, em Bonifácio, no município de Palmeira dos Índios. Neste mês de setembro de 2026, portanto, completam-se 120 anos de seu nascimento. É uma data que devolve a Palmeira dos Índios uma parte de sua própria história e permite às novas gerações descobrir que um dos personagens mais conhecidos da política fluminense do século XX começou a vida no Agreste alagoano.
É por isso que a Tribuna do Sertão inicia nesta edição uma série de quatro reportagens sobre o homem que o Brasil conheceria como “O Homem da Capa Preta”. A proposta não é construir um herói nem reduzir Tenório a uma caricatura de violência. É recuperar sua trajetória, suas contradições, sua relação com a política, com a imprensa e com as massas populares — começando do ponto que muitas vezes desaparece das biografias mais rápidas: Tenório era alagoano. Era palmeirense.
Um menino do sertão alagoano
O Bonifácio onde Tenório nasceu fazia parte de um Nordeste profundamente rural. Era filho de Antônio Tenório Januário Cavalcanti de Albuquerque e Maria Cavalcanti de Albuquerque, descritos nas fontes biográficas como pequenos proprietários rurais. A família pertencia a um ramo empobrecido de uma tradicional linhagem nordestina.
A infância foi marcada por dificuldades. Tenório perdeu o pai ainda menino, aos 12 anos. As próprias narrativas biográficas divergem sobre as circunstâncias da morte: algumas mencionam doença; outras registram a versão de que teria ocorrido no contexto das disputas e rixas existentes naquela época. O fato documentado é que a perda alterou a situação econômica da família e fez o jovem começar a trabalhar cedo, inclusive em propriedades rurais de parentes e conhecidos.
Esse período ajuda a entender uma característica que o acompanharia durante toda a vida: Tenório transformou a própria origem social e regional em elemento de identidade política. Mesmo quando já era deputado federal, figura conhecida no Rio de Janeiro e personagem recorrente nas páginas da imprensa nacional, continuava a falar com sotaque nordestino e a explorar publicamente a imagem do homem que havia saído do interior.
A distância entre Bonifácio e o cenário em que ele alcançaria projeção nacional era imensa. Não apenas em quilômetros.
Era uma distância social.
Era uma distância econômica.
E era, sobretudo, uma distância política.
Do interior de Alagoas para o Rio de Janeiro
Ainda muito jovem, Tenório deixou Alagoas e partiu para o Rio de Janeiro. Fontes biográficas registram que, antes de alcançar qualquer posição de destaque, passou por diferentes ocupações e viveu em condições modestas. Em 1927, já aparece administrando uma fazenda na região de Duque de Caxias, então ainda vinculada administrativamente a Nova Iguaçu.
Ali começaria efetivamente a história do Tenório que o Brasil conheceria.
A Baixada Fluminense vivia um processo acelerado de transformação. A expansão urbana em direção às áreas periféricas da então capital aumentava o valor das terras, atraía trabalhadores e migrantes e produzia conflitos fundiários e políticos. Estudos históricos classificam os municípios da Baixada daquele período como parte dos “subúrbios periféricos” da metrópole carioca.
Era um território no qual autoridade política, propriedade de terra, segurança e liderança comunitária frequentemente se misturavam.
Tenório entrou nesse ambiente e não permaneceu anônimo por muito tempo.