Empresários ligados à Prefeitura de Maceió são apreendidos com R$ 2 milhões em espécie
Gestão JHC assinou TAG de R$ 212 milhões com a empresa três dias antes de ex-prefeito renunciar
Maceió (AL) — Dois empresários ligados à Ceilurb, empresa fornecedora da autarquia de iluminação pública de Maceió, foram presos na tarde desta sexta-feira (18) ao sacar R$ 2 milhões em dinheiro vivo em uma agência bancária na capital alagoana. A prisão reacende as suspeitas sobre os pagamentos bilionários que a Prefeitura de Maceió, por meio da autarquia ILUMINA, vem fazendo à empresa nos últimos cinco anos e meio — R$ 320,5 milhões ao todo, sendo R$ 52 milhões somente em 2026.
A Ceilurb, cujo nome de registro é Vasconcelos e Santos Ltda, opera o sistema de iluminação pública de Maceió desde 2022, por meio do Contrato nº 187/2022, firmado com a antiga gestão de João Henrique Caldas, o JHC. A empresa é administrada por Ladjane Correia de Vasconcelos Torres Bandeira, que figura como sócia-administradora em documentos oficiais.
O caso ganha contornos políticos porque, três dias antes de deixar o cargo para concorrer nas eleições de 2026, o ex-prefeito de Maceió e candidato ao Governo de Alagoas, JHC (PSDB), formalizou com a Ceilurb um Termo de Ajustamento de Gestão (TAG) no valor de R$ 212.244.144,94, reconhecendo uma dívida acumulada com a empresa relativa a reajustes contratuais atrasados. O termo, assinado em 1º de abril de 2026 e homologado pelo Tribunal de Contas do Estado de Alagoas (TCE-AL), previu o pagamento consensual de R$ 200 milhões em parcelas ao longo de cinco anos, uma redução de cerca de 10% sobre o valor originalmente apurado, com a empresa abrindo mão de outros R$ 80 milhões em juros e multas. JHC renunciou ao cargo em 4 de abril, quatro dias depois, para se lançar candidato ao Governo de Alagoas.
O acordo garantiu à Ceilurb prioridade no recebimento de recursos da Contribuição para Custeio do Serviço de Iluminação Pública (COSIP), a taxa que os moradores de Maceió pagam na conta de energia, cuja arrecadação mais que dobrou desde 2020, saltando de R$ 98,28 milhões para uma projeção de R$ 200 milhões em 2026. Nos nove dias que antecederam a prisão de hoje, a empresa recebeu R$ 5 milhões da Prefeitura, e teve empenhado mais R$ 3,5 milhões como repasse classificado como "obras realizadas", financiado por um contrato de crédito com a Caixa Econômica Federal.
A Ceilurb também presta serviços de decoração natalina e festiva à cidade, incluindo a árvore de Natal gigante e a iluminação permanente de praças como o Parque do Centenário. A apuração identificou que o mesmo grupo empresarial protagonizou contratações semelhantes, sem concorrência ampla, em outros dois estados: em Belém (PA), venceu por adesão a uma ata de registro de preços um contrato de R$ 20,2 milhões para a decoração do Círio de Nazaré e do Natal de 2025, hoje sob investigação do Tribunal de Contas dos Municípios do Pará; em Aracaju (SE), recebeu R$ 10 milhões sem licitação da Emsurb para o "Natal Iluminado" de 2024, pagos com recursos de COSIP considerados irregulares pelo tribunal de contas local, e é alvo de uma CPI municipal ainda em andamento.
Procurada, a Prefeitura de Maceió ainda não se manifestou. A reportagem também tentou contato com a Ceilurb, sem retorno até a publicação.