Justiça procura R$ 677 mil nas contas de JHC e João Caldas, mas encontra R$ 177 mil com o filho e apenas R$ 2,8 mil com o pai
Ordem judicial buscava R$ 444,6 mil nas contas do candidato ao Governo; cobrança se arrasta desde campanha que o elegeu deputado federal e sistema do Judiciário continuará procurando novos valores
Uma dívida originada na campanha eleitoral de 2014, quando João Henrique Caldas, o JHC (PSDB), conquistou seu primeiro mandato de deputado federal, chegou agora diretamente às contas bancárias do candidato ao Governo de Alagoas.
A Justiça determinou o bloqueio de ativos financeiros de JHC para pagamento de uma dívida com a agência de publicidade que trabalhou naquela campanha. A ordem previa a localização de até R$ 444,6 mil, mas o rastreamento realizado pelo Judiciário encontrou R$ 177,7 mil distribuídos em quatro contas, segundo reportagem publicada nesta quarta-feira (23) pelo jornalista Carlos Madeiro, do UOL.
O episódio chama atenção por um detalhe objetivo: na declaração de bens entregue pelo próprio JHC ao Tribunal Superior Eleitoral para disputar as eleições de 2026, o candidato informou possuir patrimônio de aproximadamente R$ 2,2 milhões, incluindo mais de R$ 500 mil mantidos em instituições financeiras.
Foi justamente essa declaração feita à Justiça Eleitoral que abriu caminho para uma nova tentativa de execução da dívida.
A determinação partiu do juiz Jamil Amil Albuquerque de Hollanda Ferreira, da 7ª Vara Cível da Capital, que ordenou, em 31 de agosto, a pesquisa e o bloqueio de ativos financeiros do candidato.
Segundo o levantamento judicial divulgado pelo UOL, apesar de JHC ter declarado mais de meio milhão de reais em aplicações e contas bancárias, foram localizados, no rastreamento realizado em 15 de setembro, R$ 177,7 mil.
A declaração entregue ao TSE informa R$ 237,7 mil em aplicações de renda fixa, R$ 36,3 mil em conta corrente e R$ 286 mil em caderneta de poupança.
Cobrança começou depois da eleição de 2014
A origem da disputa remonta à campanha que levou JHC à Câmara dos Deputados.
O empresário Deilan Arcanjo, então proprietário da Imagine Comunicação & Marketing, afirma que a agência foi contratada para trabalhar nas campanhas de JHC e de seu pai, o ex-deputado João Caldas.
De acordo com a reportagem, o contrato referente a JHC tinha valor de R$ 80 mil, enquanto o serviço destinado à campanha de João Caldas era de R$ 40 mil. Os contratos foram registrados no sistema da Justiça Eleitoral.
JHC terminou aquela eleição como o deputado federal mais votado de Alagoas, com 135.929 votos.
A agência, contudo, sustenta que os serviços não foram integralmente pagos. O débito acabou levado à Justiça em 2015.
De acordo com o UOL, a empresa conseguiu posteriormente o reconhecimento formal da dívida, mas durante anos encontrou dificuldades para executar a cobrança porque não eram localizados bens suficientes em nome dos devedores.
Doze anos depois da campanha, a própria declaração patrimonial apresentada por JHC para concorrer ao Governo de Alagoas permitiu que os advogados do credor voltassem à Justiça apontando a existência de recursos financeiros.
Justiça também bloqueou contas do pai de JHC
A ordem judicial também alcançou João Caldas, pai do candidato e presidente nacional do Democracia Cristã.
No caso dele, o Judiciário pretendia bloquear até R$ 232,9 mil.
Foram encontrados, contudo, apenas R$ 2,8 mil em duas contas bancárias, segundo a reportagem.
O empresário afirma que, considerando atualização e demais valores envolvidos, a dívida atribuída a pai e filho estaria atualmente próxima de R$ 700 mil.
Sistema continuará procurando dinheiro nas contas
Como o Judiciário não encontrou de imediato todo o valor determinado para o bloqueio, o Sisbajud acionou um mecanismo conhecido informalmente como “teimosinha”.
Durante 30 dias, o sistema realiza novas tentativas automáticas de bloqueio. Isso significa que valores que entrarem nas contas alcançadas pela ordem judicial poderão ser retidos até que seja atingido o limite determinado pela Justiça.
A defesa da antiga agência também pediu a expedição de alvará para que o dinheiro já bloqueado seja destinado ao pagamento da dívida.
Patrimônio declarado reacendeu cobrança
O ponto central do caso está justamente na mudança da situação patrimonial apresentada à Justiça Eleitoral.
Durante anos, segundo a reportagem, a execução enfrentou obstáculos porque não eram encontrados ativos suficientes.
Em 2026, entretanto, JHC declarou ao TSE patrimônio de R$ 2,2 milhões e mais de R$ 500 mil depositados ou investidos em bancos. A informação oficial prestada pelo próprio candidato serviu de fundamento para que o credor indicasse os ativos à Justiça e pedisse uma nova tentativa de penhora.
A esposa de JHC, Marina Cândia (PSDB), candidata ao Senado, declarou patrimônio de aproximadamente R$ 47 milhões. Ela, porém, não integra o processo, pois não era casada com JHC quando os serviços foram contratados, em 2014.
JHC não se manifestou ao UOL
A reportagem de Carlos Madeiro informa que procurou as assessorias de JHC e João Caldas para que se manifestassem sobre a cobrança e sobre o bloqueio judicial, mas não recebeu resposta até a publicação.
O espaço deve permanecer aberto para manifestação do candidato.
O caso coloca novamente sob escrutínio uma relação comercial iniciada há mais de uma década: uma agência trabalhou na campanha que ajudou JHC a chegar à Câmara dos Deputados, a dívida acabou reconhecida judicialmente e, agora, às vésperas da eleição estadual de 2026, a Justiça chegou às contas bancárias do candidato para tentar receber os valores ainda pendentes.
Com informações da reportagem de Carlos Madeiro/UOL.