Alta na abstenção pode impactar disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro
Cientistas políticos discutem efeitos da ausência de eleitores nas urnas nas próximas eleições.
O crescimento da abstenção, que atingiu 20,8% no primeiro turno de 2022, pode ser decisivo na disputa presidencial deste ano. Com Lula e Flávio Bolsonaro separados por poucos pontos nas pesquisas, especialistas divergem sobre qual candidato seria mais prejudicado pela ausência de eleitores nas urnas.
A abstenção no primeiro turno das eleições presidenciais vem crescendo de forma contínua desde 2006 e atingiu 20,79% em 2022, o equivalente a 32,2 milhões de eleitores ausentes, segundo apuração de um jornal de grande circulação no país. Em uma disputa marcada pelo equilíbrio entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas, especialistas avaliam que o comparecimento às urnas pode ser decisivo para o resultado.
No pleito de 2022, apesar do cenário pós-pandemia de COVID-19, a abstenção caiu no segundo turno pela primeira vez desde 2002. Neste ano, porém, a expectativa é de nova alta, tendência observada em todos os ciclos eleitorais recentes.
Para o cientista político Antônio Lavareda, consultado pela mídia, o aumento da abstenção tende a prejudicar Lula.
"A abstenção vai prejudicar Lula porque ele tem menos votos entre os menos escolarizados do que tinha em 2022. Há uma insatisfação com a economia e a percepção de que ela não melhorará", afirmou o analista ao jornal.
Lavareda acredita ainda que a relação entre baixa escolaridade e abstenção é extremamente forte e argumenta que dificuldades logísticas, menor engajamento político e incertezas econômicas contribuem para reduzir a participação desses eleitores, mesmo entre aqueles que demonstram simpatia pelo presidente Lula.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reforçam essa avaliação. Em 2022, a taxa de abstenção entre analfabetos chegou a 52% no primeiro turno e 49,3% no segundo. Entre eleitores com ensino superior completo, o índice foi de 12,4%, ocasião em que também foi registrada uma elevada ausência os eleitores com mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo.
Pela primeira vez em décadas, os principais candidatos não participaram de debates entre si, enquanto pesquisas apontam menor interesse do eleitorado na disputa e isto pode resultar em abstenções, já que as maiores taxas costumam ocorrer em municípios pequenos, áreas remotas da Região Norte e regiões de fronteira do país, que comummente não contam com mobilização local e dependem de instrumentos de alcance mais amplo.
A mais recente pesquisa Datafolha mostrou Lula com 42% das intenções de voto no primeiro turno, contra 38% de Flávio Bolsonaro. Nos votos válidos, o presidente aparece com 45%, ante 40% do adversário. Em um eventual segundo turno, há empate técnico dentro da margem de erro, com 48% para Lula e 45% para Flávio.
Embora reconheçam que a abstenção pode influenciar uma eleição tão apertada, os especialistas divergem sobre qual candidato seria mais afetado. Enquanto Lavareda vê potencial prejuízo para Lula, a diretora do Datafolha, Luciana Chong, e o pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Jairo Nicolau ponderam que fatores regionais e comportamentais tornam qualquer previsão incerta.
"[...] Na última eleição, houve redução da abstenção no segundo turno, e brancos e nulos até caíram para presidente. E agora vem esse clima estranho e a gente não sabe em que isso vai se traduzir. Acho que uma hora vai se traduzir em recusa", destacou Nicolau.
Para o professor de ciência política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Bruno Reis, apesar das preocupações, o comparecimento do eleitor brasileiro deve permanecer próximo de 80%, índice considerado elevado em comparação internacional.
Por Sputinik Brasil