Márcio Alves, candidato da UP, defende a reindustrialização do Brasil
Candidato critica a desindustrialização do ABC Paulista e a falta de políticas voltadas para o setor produtivo.
A Sputnik Brasil solicitou entrevista com todos os candidatos ao Senado pelo estado paulista e realiza, nesta reta final de campanha antes do primeiro turno, uma série de publicações com cada um dos postulantes às duas vagas em jogo nesta eleição.
O militante e operário metalúrgico Márcio Alves, da Unidade Popular (UP), conversou com a reportagem dentro da Ocupação Palestina Livre, mantida pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) em Diadema, no Grande ABC Paulista. Instalada em um antigo hospital privado, a ocupação completa um ano.
"Assim como questionamos, não só o nosso país, mas o mundo, sobre essa chacina, esse massacre que Israel promove a olhos vistos."
Segundo Alves, o prédio pertence a um devedor da prefeitura e nunca teve função social. O movimento diz enfrentar ação civil pública, tentativas de despejo e criminalização por parte da gestão municipal.
"Hoje faz um ano que a gente está aqui resistindo, tentando construir um local digno para as famílias que necessitam de uma moradia."
Natural da Bahia, Márcio mudou-se para São Paulo na infância, passando a residir no Grajaú, na zona sul da capital. Em 1998, a família foi viver em uma ocupação em São Bernardo do Campo, onde sua mãe mora até hoje. Ele conheceu o MLB em 2008, onde passou a integrar a coordenação de núcleos habitacionais. Começou a carreira no setor metalúrgico como operário prensista.
Se eleito, Alves afirma que sua atuação priorizará destinar imóveis urbanos ociosos para programas de habitação de interesse social, aplicando IPTU progressivo e desapropriações previstas em Lei.
"Hoje existe mais imóvel vazio do que gente para morar. Vamos fazer uma lei para que prédios ociosos e abandonados sejam imediatamente destinados à construção de moradia popular."
O candidato critica o modelo de financiamento habitacional focado na iniciativa privada e defende o fortalecimento do programa Minha Casa, Minha Vida Entidades, no qual a gestão das obras é realizada diretamente por associações e movimentos populares. Ele relatou que um terreno do próprio movimento em Diadema, com projeto aprovado na Caixa, aguarda há quatro anos a liberação de recursos.
"Quando os movimentos gerem a obra, ela acontece com mais agilidade e mais qualidade, e ainda gera emprego e renda para as famílias."
Alves também se posicionou contra o avanço de empreendimentos do tipo studio ou kitnet (com metragens inferiores a 20 m²) em áreas centrais de São Paulo.
"Eu acho que isso é um crime, tem que ser proibido esse tipo de construção."
Ele atribui a proliferação desses modelos às diretrizes da gestão municipal paulistana, argumentando que a prática atende a interesses de fundos imobiliários e bancos, sem oferecer moradia adequada para famílias ou população cadastrada em programas habitacionais.
Sobre o Supremo Tribunal Federal (STF), Márcio defende que magistrados passem a ser escolhidos por voto popular direto, após comprovação de capacidade técnica e sabatina pública.
"Quem quer ser ministro do STF tem que passar pelo escrutínio popular, se apresentar, falar o que pensa do Brasil. Com outras etapas, porque não é só uma eleição: o candidato também tem que provar que tem competência para o cargo."
Para ele, o atual formato de indicações pelo Executivo produz "juízes que advogam para quem está de plantão no governo", e a eleição seria também uma barreira contra regalias e oportunistas.
Indústria e trabalho
Sobre o Grande ABC, o candidato destacou o esvaziamento do parque fabril e o declínio de postos de trabalho qualificados.
"A região sofre com a desindustrialização, as empresas indo embora, desqualificando cada vez mais a mão de obra, porque não há um parque fabril com emprego qualificado."
Como exemplo, citou a montadora chinesa BYD.
"Ela está aqui no Brasil, mas não há uma indústria de autopeças para fornecer a montagem dos carros. Vem tudo de fora e não gera emprego de qualidade," afirma Alves. "O que impede o Brasil de ter seu próprio automóvel? Já tivemos. Por que não temos uma indústria brasileira de eletrodomésticos?"
Além disso, o candidato defende a escala 4 X 3 sem redução salarial e, quanto ao impacto para pequenos negócios, afirma que a medida deve alcançar principalmente os grandes grupos.
"Essas grandes empresas estrangeiras, que têm monopólio, também precisam se enquadrar na regulação da escala 4 X 3."
Segundo ele, tais avanços poderiam ser viabilizados via auditoria e suspensão da dívida pública.
"Esse dinheiro vai para o bolso de banqueiros e deveria vir para o povo trabalhador, para investir na reindustrialização do país."
Outros temas
O candidato é contra classificar organizações criminosas como terroristas, para não abrir margem para intervenções de agências e governos estrangeiros no país.
Para Alves, o combate ao crime organizado deve priorizar ações de inteligência e o estrangulamento financeiro do tráfico de drogas em setores de alta renda e no sistema financeiro, como a região da Faria Lima, em São Paulo, além do reforço na fiscalização de fronteiras.
"Soberania é combater o tráfico com inteligência. A droga não vem lá do morro, a arma também não é fabricada lá. O que querem é criminalizar para poder invadir. Nós defendemos um país soberano, que não aceita interferência de outros países."
O militante da UP também critica a tese do "voto útil" no primeiro turno, avaliando que o conceito desestimula o debate sobre propostas estruturais.
"Esse voto útil é para botar medo nas pessoas, medo de votar no que elas acreditam. Não dá para querer mudança com o mesmo no poder," disse. O candidato defende ainda retomar instrumentos de democracia direta previstos na Constituição, como plebiscitos e referendos.