Milei instrumentaliza a questão das Malvinas em busca de apoio popular
Análise aponta que presidente argentino utiliza tema para desviar a atenção da crise econômica.
O presidente argentino, Javier Milei, que já expressou admiração por Margaret Thatcher, mudou de postura e agora ameaça sanções contra petroleiras britânicas nas Malvinas. O endurecimento ocorre devido ao projeto de petróleo Sea Lion. Com isso, reacende-se o debate sobre se este ato atende aos anseios do país ou se é um ato político do governante.
Para Astrid Cazalbón, analista argentina e pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Segurança Energética (Gesene) da UFPB, Milei tem instrumentalizado de maneira oportunista a causa das Malvinas, um tema historicamente caro à população, como estratégia para mitigar sua impopularidade.
"[Milei] busca um tema para sair um pouco da realidade que os argentinos estão vivenciando, do que estão tendo que enfrentar: a pobreza, os indicadores macroeconômicos em baixa, falta de crescimento e de emprego, enfim, todas as questões sociais que afetam o país hoje. E, claramente, Milei está usando [a causa das Ilhas Malvinas] de maneira oportunista", disse.
A especialista também relembra a profunda contradição no comportamento de Milei. O exemplo mais recente ocorreu durante a Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, após a vitória argentina contra a Inglaterra na semifinal. Na ocasião, os jogadores celebraram exibindo uma faixa afirmando que as Malvinas são argentinas. Inicialmente, Milei desaprovou o ato, rotulando-o como "patriotismo barato" e defendendo a separação entre futebol e política.
"A gente viu agora na Copa do Mundo: a Argentina chegou à semifinal, enfrentou a Inglaterra e levantou essa bandeira. E Milei, no momento, falou que não estava a favor de uma manifestação política por parte dos jogadores, tentando diferenciar uma coisa da outra. Só que agora ele está voltando a usar as Malvinas para o seu eleitorado", comenta.
Malvinas e o interesse de ocasião de atores externos
Embora os EUA e Israel façam acenos a Milei, o apoio real sobre as Malvinas é incerto. Diante das alianças históricas com Londres e do fato de uma petroleira israelense explorar o petróleo das ilhas, o triângulo diplomático ocidental limita qualquer ajuda prática, reduzindo as promessas a mera retórica, conforme explica Astrid.
"Essa questão [do apoio dos] Estados Unidos e Israel é por conveniência, porque agora eles estão enfrentando desafios, os EUA estão perdendo nessas guerras e perdendo terreno em outras áreas. Então, certamente, de alguma maneira, vão voltar a atenção para outras regiões que têm importantes recursos [como a Argentina]", destaca.
A pesquisadora conecta o ultimato das Malvinas à abertura de Vaca Muerta ao capital norte-americano. Para compensar politicamente a entrega dos recursos energéticos do continente aos EUA, Milei usa a retórica nacionalista contra o Reino Unido, para limitar qualquer petrolífera que colabore com os projetos britânicos em Vaca Muerta.
"A gente tem vários recursos na região das Malvinas e também no sul da Argentina, na grande região patagônica, onde fica Vaca Muerta. E essa questão poderia, de alguma maneira, ameaçar as empresas britânicas e também, de alguma forma, pode favorecer a operação por parte de empresas dos Estados Unidos, que também já estão operando nessa área de Vaca Muerta", observa.
Ameaças de Milei contra o Reino Unido são retóricas
Segundo a análise de Astrid, o Reino Unido evita polemizar sobre as Malvinas, que Londres reconhece como Falklands, para impedir que o tema ganhe projeção no cenário internacional. Nesse contexto, um governo como o de Milei, que não prioriza a soberania como política de Estado, acaba sendo útil aos interesses britânicos de alguma forma.
"Por parte do Reino Unido, o que eles continuam fazendo é defendendo a soberania. Porém, para eles é conveniente um tipo de governo mais fraco nas instituições internacionais, então para eles é conveniente manter o Milei. Acredito que para o Reino Unido não é conveniente trazer esse tema, eles não querem opinar muito, porque isso pode fazer com que a questão da soberania das ilhas seja discutida de novo", conclui.
A história é recorrentemente instrumentalizada por governantes para demarcar posições, seja para o público doméstico, seja no tabuleiro geopolítico, e a disputa de narrativas pelas Ilhas Malvinas é um reflexo claro disso. No cenário atual, essa dinâmica da política interna argentina extrapola fronteiras, gerando repercussões extrarregionais.