Namorado de Isabelle Caracristi é solto após decisão judicial
Medidas cautelares foram impostas após revogação de prisão do suspeito de induzir suicídio.
O Juízo da 5ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza acolheu a manifestação do Ministério Público e revogou a prisão de João Munhoz Neto, de 34 anos, namorado de Isabelle Caracristi, de 22 anos, encontrada morta no pátio do condomínio onde morava com ele na capital do Ceará. O Estadão não localizou a defesa de Munhoz Neto. O espaço segue aberto.
De acordo com a decisão, foram estabelecidas medidas cautelares, entre elas o distanciamento dos familiares da vítima, o monitoramento eletrônico e a proibição de se ausentar da comarca.
Isabelle morreu após cair do terraço do prédio onde morava com Munhoz Neto, em um bairro nobre de Fortaleza. Ele foi preso preventivamente no dia 22 de outubro, suspeito de induzir suicídio e obstruir a Justiça.
O perito legista Júlio Torres, chefe da Perícia Forense do Ceará (Pefoce), informou na manhã do dia 23 de outubro que a morte aconteceu por precipitação voluntária. O crime de induzimento, instigação ou auxílio a suicídio ou a automutilação é previsto no artigo 122 do Código Penal. A pena é de reclusão de dois a seis anos, uma vez que o suicídio se concretizou.
A defesa nega as acusações. Em entrevista coletiva, a defesa do acusado afirmou que "querem fingir um feminicídio".
Suspeito procurou o celular da vítima após morte
Conforme informações obtidas pelo programa Fantástico, a síndica do prédio onde Isabelle e Munhoz Neto moravam afirmou em depoimento que ele pediu ao porteiro que procurasse o celular da jovem nas lixeiras do edifício no dia seguinte à morte. Segundo ela, o suspeito também teria impedido a entrada da família de Isabelle no prédio.
Ainda segundo o programa de TV, no mesmo dia Munhoz Neto também mandou limpar o apartamento, retirou alguns objetos do imóvel e o colocou à venda.
O celular de Isabelle havia sido localizado pela polícia junto ao corpo da jovem. No aparelho, foram recuperados áudios e mensagens enviados a familiares e amigas pouco antes de morrer. O Fantástico teve acesso aos conteúdos, nos quais ela relatou ameaças e descreveu comportamentos que considerava controladores por parte do namorado.
Em um áudio enviado ao primo, Isabelle relata: "Estão acontecendo coisas sérias, coisas graves, que eu venho guardando só para mim. São ameaças diretas vindas dele, entendeu? Que eu simplesmente não estou suportando mais".
Em outra mensagem, a estudante afirmou que não conseguia realizar determinadas atividades sozinha e restrições impostas pelo namorado. "Eu não consigo, por exemplo, fazer nada sozinha, porque se ele não estiver junto, ele fica supondo coisas. Eu não posso postar foto, porque ele acha ruim", afirmou.
Isabelle também contou às amigas que o namorado a proibia de sair do próprio prédio e chegava a ficar na porta para impedir sua passagem. "Eu simplesmente não aguento mais, eu não aguento mais. Eu estou cansada. Hoje foi a gota dágua", relatou.
Antes de morrer, a estudante enviou ainda uma mensagem de despedida ao irmão e à mãe. Segundo o Fantástico, ela pediu perdão, disse que havia sido vencida pelo medo e pediu ao irmão que protegesse a mãe.
Isorlanda Caracristi, mãe de Isabelle, afirma que não foi avisada diretamente por Munhoz Neto sobre a morte da filha. "Ele não me ligou. Eu estava dormindo. Quando eu vejo, foi uma ligação de um número desconhecido. Se fosse ele me ligando, o número era conhecido, eu teria imediatamente atendido. Eu tive que ir lá para saber da morte da minha filha", contou.
Cobrança financeira
Conversas recuperadas do celular de Isabelle mostram também uma discussão financeira entre ela e Munhoz Neto no dia da morte. Segundo o Fantástico, ele cobrava R$ 13,5 mil da estudante e mencionava a necessidade de receber dinheiro para quitar gastos.
A advogada da família, Patrícia Viana, afirmou que, após o empréstimo, Munhoz Neto teria feito outras cobranças e exigido, entre outras coisas, a localização de Isabelle.
Em depoimento à Polícia Civil, o suspeito afirmou que havia emprestado pouco mais de R$ 14 mil à estudante e que a mãe dele havia emprestado outros R$ 7 mil. Ele negou ter feito ameaças e disse que apenas fez uma cobrança mais firme após o vencimento do prazo. A defesa nega as acusações de controle e abuso psicológico.
Isabelle e Munhoz Neto se conheceram em um escritório de advocacia onde ele era gestor e ela trabalhava como estagiária. Segundo depoimento obtido pelo Fantástico, o proprietário do escritório afirmou que a jovem o procurou e disse que se sentia "sufocada" profissionalmente pelo namorado.
A mãe de Isabelle afirmou ao programa de TV que espera respostas sobre a morte da filha e que o caso não se repita. "Eu quero que isso que aconteceu com minha filha, essa relação abusiva, controladora, não se repita. São coisas que eu, como mãe, quero as respostas e quero justiça para minha filha", afirmou.
Investigação
Imagens de câmeras de segurança mostram Isabelle chegando ao prédio acompanhada de João e subindo para o apartamento, no 15º andar. Posteriormente, ele saiu para ir a uma missa, enquanto ela permaneceu no imóvel. Às 19h12, a jovem foi registrada pela última vez no elevador.
A perícia concluiu que a queda foi voluntária e não encontrou indícios de que Isabelle tenha sido empurrada. A hipótese de uma queda acidental também foi descartada. Segundo o Fantástico, a perita do Instituto Médico-Legal (IML), Ana Leopoldina Rocha, afirmou que não foram identificadas lesões de defesa que indicassem uma possível luta corporal.
A polícia analisa mais de 700 vídeos das câmeras do prédio e tenta estabelecer o horário exato em que João soube da queda. O celular dele também é investigado. Segundo o delegado Márcio Gutiérrez, o aparelho contém mais de 400 mil mensagens, além de e-mails e informações de localização.
A polícia já ouviu 25 pessoas no caso. A investigação também apura a relação de Munhoz Neto com outra mulher. A defesa confirmou que ele é casado, mas afirmou que estava separado da esposa.
Onde buscar ajuda
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:
Centro de Valorização da Vida (CVV)
Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.
Canal Pode Falar
Iniciativa criada pelo Unicef para oferecer escuta para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.
SUS
Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. Na cidade de São Paulo, são 33 Caps Infantojuventis e é possível buscar os endereços das unidades nesta página.
Mapa da Saúde Mental
O site traz mapas com unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.