União Europeia reforça presença no Ártico em meio a crescente rivalidade mundial
Reunião na Finlândia destaca a urgência de expansão da atuação da UE na região estratégica.
À Sputnik Brasil, especialistas avaliam como o avanço de EUA, Rússia e China sobre rotas, minerais e energia pressiona a União Europeia a reforçar sua presença na região.
Doze países europeus se reuniram na Finlândia e defenderam que a União Europeia (UE) amplie sua atuação no Ártico, região cuja importância geopolítica cresce em meio ao degelo e, sobretudo, às pressões dos Estados Unidos sobre a Groenlândia.
"Conclamamos a União Europeia a desempenhar um papel mais estratégico e proativo no Ártico europeu", posicionaram-se os líderes em declaração conjunta divulgada após uma cúpula em Rovaniemi. Participaram do encontro países como Dinamarca, Alemanha, Estônia, França, Letônia, Lituânia e Romênia, além de outros que aderiram à declaração e representantes da União Europeia.
Apesar de ter adotado medidas para a segurança ártica em 2021 — como a destinação de recursos para quebra-gelos e outros equipamentos —, os países europeus ficam "espremidos" na disputa por novas rotas e recursos naturais que surgem por conta do degelo no polo.
Foco passou de 'pesquisa' para 'estratégico'
Antes visto como uma região destinada a pesquisas científicas, assumindo um caráter mais ambiental — com destaque para sua biodiversidade adaptada às condições extremas, fora a importância para o equilíbrio climático global —, o Ártico é ainda mais cobiçado hoje.
Como explica Carolina Pavese, especialista em Europa, consultora e professora, à Sputnik Brasil, o Ártico concentra rotas marítimas importantes para o transporte de energia, além de reservas de petróleo e minerais críticos, que ganharam relevância para as economias, a inovação tecnológica e a indústria de defesa.
"Quem conseguir garantir acesso a esses recursos primeiro, leva muita vantagem", afirma. Para ela, a importância desses recursos tende a crescer conforme avançam a inovação tecnológica e a demanda da indústria de defesa.
Além disso, os conflitos no Oriente Médio e as turbulências nos estreitos de Ormuz e Bab al-Mandeb deram às rotas logísticas árticas uma maior relevância global, ao abrir novas possibilidades de circulação marítima.
"A exploração desses recursos se deve principalmente às mudanças climáticas e a esses degelos, que vão abrindo novas rotas marítimas, principalmente entre Ásia e Europa." Nesse cenário, a própria ilha da Groenlândia se torna apenas parte de uma disputa mais ampla pelo Ártico, uma forma de "marcar presença" na região.
Presença no Ártico
Pavese acrescenta que o alerta da União Europeia é dado após anos de "uma política muito branda" em relação à participação do bloco no Ártico. Isso pode ser observado na própria classificação da região como "geopolitical hotspot" pela alta representante da UE para Política Externa e Segurança, Kaja Kallas.
Em contraste, a Rússia tem uma presença histórica no extremo norte, sendo uma região fundamental para o transporte de commodities.
"Eles comeram um pouco de mosca esse tempo e agora estão, já que essa região passou a ganhar tanta atenção nessa agenda das relações internacionais, tentando correr um pouco atrás do prejuízo."
A declaração conjunta, segundo Pavese, representa justamente uma tentativa de chamar a atenção de Bruxelas para a necessidade de uma atuação mais efetiva na região.
A especialista cita um acordo firmado pela UE com a Groenlândia, por meio do programa de infraestrutura Global Gateway, com recursos de € 200 milhões para o desenvolvimento da economia regional, incluindo áreas como minerais críticos, energia e pesca. "Isso mostra uma guinada nessa orientação da União Europeia."
Enquanto vê que a preocupação dos Estados Unidos em se apossar da Groenlândia envolve uma preocupação de conter Rússia e China no Ártico, a especialista pontua que a questão também envolve o perfil do presidente Donald Trump.
"Vem também nessa ideia de ampliar a sua influência e a sua zona de controle territorial num sentido bem geográfico, físico, e que é uma característica do governo de Trump", explica, lembrando a ambição do republicano de converter o território no 51º estado do país.
Entre agenda ambiental e necessidade de recursos
Segundo Letícia da Luz, mestranda em estudos marítimos da Escola de Guerra Naval (EGN), a política ambiental da União Europeia entra em contradição com o interesse crescente pelos recursos naturais do Ártico. Embora o bloco defenda políticas de proteção ambiental e exploração sustentável, sua própria transição energética depende de minerais críticos e terras raras presentes na região.
"Acaba sendo um pouco contraditória a política europeia para essa questão ambiental."
Para a especialista, a necessidade desses insumos faz com que a questão ambiental precise ser conciliada com os interesses econômicos e estratégicos europeus. A exploração, porém, envolve riscos ambientais elevados. Um eventual derramamento de petróleo, ou um acidente envolvendo uma embarcação, poderia ter consequências graves em uma região com capacidade limitada de resposta a emergências, dada a falta de infraestrutura e a perspectiva de aumento do movimento marítimo.
Acima de tudo, as preocupações estariam na dimensão militar. "O primeiro objetivo é o militar e o segundo são os recursos energéticos", diz Luz, argumentando que proteger reservas e rotas de transporte contribui para justificar uma presença militar maior no Ártico.
Nesse campo, a entrada de Finlândia e Suécia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ampliou a presença da aliança no Ártico. Dos oito países que integram o Conselho do Ártico, principal fórum de discussão sobre a região, sete também fazem parte da organização.