POLÍTICA

Brasil registra um caso de violência política a cada 48 horas, aponta pesquisa

Estudo revela que a violência persiste mesmo em anos sem eleições, com números alarmantes desde 2024.

Por Sputnik Brasil Publicado em 30/09/2026 às 16:10
Estudo aponta crescimento da violência política no Brasil em períodos eleitorais e fora deles. © Sputnik / Solon Neto

A cada dois dias, um caso de violência política foi registrado no Brasil entre outubro de 2024 e agosto de 2026, incluindo os períodos sem disputa eleitoral nas urnas.

A constatação vem de dados da 4ª edição do estudo sobre Violência Política e Eleitoral no Brasil, das organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global, divulgado nesta quarta-feira (30).

A pesquisa aponta que entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, o Brasil registrou 354 episódios de violência política, em média uma ocorrência a cada 44h. Somente em 2025, ano sem eleições, foram 225 casos.

Os números relativos ao primeiro turno do período de campanha eleitoral de 2026, que compreende de 16 de agosto a 4 de outubro, serão divulgados na próxima semana.

A pesquisa, que completa dez anos, afirma que esse período pré-eleitoral foi o mais violento da série histórica e, em comparação com o levantamento anterior, houve aumento de 18,4% da violência. Ao todo, 299 casos foram registrados no período pré-eleitoral entre 1º de novembro de 2022 e 15 de agosto de 2024.

Segundo os pesquisadores, a violência acompanha o exercício parlamentar ao longo do ano, sobretudo no âmbito municipal (vereadores e prefeitos), que concentra 63% dos casos. Em 96,3% dos casos, as vítimas foram pessoas que já exerciam mandatos ou cargos públicos.

A letalidade segue o mesmo padrão: 24 dos 28 episódios com intenção letal (incluindo dez dos 11 assassinatos e 14 dos 17 atentados registrados) ocorreram contra agentes políticos locais.

"A violência política é um fenômeno permanente [...] atinge diretamente quem ocupa espaços de decisão e exerce poder sobre contratos e recursos públicos. A pesquisa mostra que inclusive grupos criminosos e até mesmo policiais estão entre os responsáveis pelos atos de violência", explicou a diretora-executiva da Justiça Global, Glaucia Marinho.

A pesquisadora ressaltou a necessidade de aperfeiçoar mecanismos de prevenção, proteção, investigação e responsabilização para enfrentar essa violência de forma contínua.

Desde 2016, a pesquisa mapeou 1.937 episódios de violações contra agentes políticos e lideranças com base na coleta de dados da cobertura jornalística nacional e regional diária e do cruzamento com registros oficiais e denúncias públicas.

Violência municipal é recordista

Vereadores correspondem a 49,6% das vítimas, com 176 dos episódios identificados. Dos 11 assassinatos registrados, dez foram de políticos municipais, sendo eles 14 das 17 vítimas de atentados e 24 entre as 28 em episódios classificados como de intenção letal. Não foi registrado nenhum assassinato de políticos na esfera federal.

A análise por partido mostra que agentes políticos de legendas de esquerda estão entre os principais alvos. Somadas, 30,23% das vítimas de violência política são representantes do PT e do PSOL. Este último teve um em cada cinco vereadores eleitos em 2024 vítima de violência política no período (taxa de 287,5/mil).

No caso do PSOL, 23 dos 80 vereadores eleitos pela legenda sofreram algum tipo de violência política, seguidos dos do PT, com 26 episódios. Na sequência, aparecem o PP, com 17 casos, PL, com 15 casos e a União Brasil, com 14.

Mulheres negras são as maiores vítimas

As mulheres ocupam cerca de 18% das cadeiras legislativas do país, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE); entretanto, elas são maioria entre as vítimas de violência política: foram vítimas de metade (50,6%) de todos os episódios, somando casos dirigidos a mulheres cisgêneras, transexuais e travestis.

A violência física (agressões, atentados e assassinatos) teve homens como alvos em 77,2% dos casos, já a violência simbólica (ameaças e ofensas) atingiu majoritariamente mulheres (58,3%). Ameaças de violência sexual (31 casos) e episódios com conteúdo de conotação sexual ou comentários sobre o corpo e aparência (67 casos) tiveram 100% de vítimas femininas.

O levantamento também revela que a composição racial muda conforme o gênero: entre as mulheres, uma em cada três é preta (64 de 179), entre os homens, uma em cada nove. Mulheres são 64 dos 84 episódios contra pessoas pretas, e onze delas são trans ou travestis. Quatro mulheres indígenas e uma amarela também foram vítimas.

Das 32 pessoas que sofreram ataques repetidos ao longo dos 22 meses, 23 foram mulheres. As mulheres negras (pretas e pardas) representam 22,8% do total de vítimas e mais da metade de todos os episódios de repetição de violência registrados.

As quatro ameaças do período assinadas por grupos ou perfis declaradamente neonazistas ou supremacistas tiveram todas como alvo mulheres pretas, em quatro estados de quatro regiões diferentes: a prefeita Professora Nilda (RN) e as vereadoras Alice Carvalho (RS), Vivi Reis (PA) e Adriana Gerônimo (CE).

"Os dados da 4ª edição confirmam que a violência política contra as mulheres é sistêmica e evidenciam o quanto o nosso sistema democrático impede o acesso das mulheres aos espaços de poder e decisão", ponderou a coordenadora de incidência política da Terra de Direitos, Gisele Barbieri.

Impunidade

Segundo ela, a impunidade tem incrementado essa violência em número e grau:

"Precisamos de respostas urgentes para esses crimes, exigindo do Estado a aplicação das sanções previstas na Lei 14.192, aprovada em 2021, para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher. Além de ampliar o escopo das legislações prevendo punições para as especificidades da violência contra as mulheres transexuais e travestis e mulheres negras que atingem altos índices de perversidade e nesta edição, inclusive, foram as únicas vítimas de ameaças de grupos ou perfis declaradamente neonazistas", defendeu ela.

Ao todo, 300 episódios, 84,5%, foram denunciados, mas apenas 46 casos (13%) contam com apuração judicial ou policial em curso e somente nove episódios (2,5% do total) tiveram punição efetiva dos autores.

Agressões dentro do parlamento e no ambiente virtual

Outro achado da pesquisa indica que em 64 episódios (18,1% do total) o agressor também possui mandato eletivo ou cargo público. Quando somados a policiais e outros agentes estatais, os ataques cometidos por representantes do próprio Estado chegam a quase um terço dos casos (29,9%).

Em 52 desses episódios, as agressões ocorreram no local de trabalho parlamentar, como plenários e sessões de comissões. A pesquisa destacou o caso da ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que foi alvo de três ofensas por parlamentares em menos de quatro meses, sendo uma de um senador que declarou ser difícil "tolerar Marina seis horas e dez minutos sem enforcá-la".

No ambiente virtual, que concentra 42,8% de todos os episódios (152 casos), o anonimato prevalece: em 48% dessas ocorrências a autoria do ataque não pôde ser identificada.

Crime organizado

Cerca de 7% dos casos de violência (26 episódios) apresentaram indício de facção criminosa ou crime organizado, sendo a maioria no Ceará (12), seguido do Rio de Janeiro (4) e de São Paulo (3).

O caso mais grave ocorreu em Mossoró (RN), quando um assessor foi assassinado e um vereador sofreu atentado no mesmo momento e local. Os dados mostram um padrão de captura de território, não de retaliação pessoal. O tipo de violência mais frequente é a ameaça (193 casos), seguido de ofensa (71), agressão física (51), atentado (17), assassinato (11), criminalização (6) e invasão (5).