POLÍTICA

Hamas e Jihad Islâmica unem-se a ex-dirigente do Fatah em nova coalizão

Aliança deve desafiar domínio do Fatah nas próximas eleições nacionais palestinas.

Por Estadao Conteudo Publicado em 30/09/2026 às 14:01
Hamas e Jihad Islâmica unem-se a ex-dirigente do Fatah em nova coalizão © AP Photo / Abed Hajjar

O Hamas e a Jihad Islâmica concordaram em formar uma improvável coalizão eleitoral com um ex-dirigente do Fatah ligado aos Emirados Árabes Unidos, segundo informações de autoridades palestinas à Associated Press. Esta aliança poderá ameaçar o domínio do Fatah, liderado pelo presidente Mahmoud Abbas, sobre a Autoridade Palestina - caso as primeiras eleições em 20 anos realmente aconteçam. Abbas anunciou que o pleito parlamentar está marcado para 28 de novembro, tanto em Gaza quanto na Cisjordânia, mas já adiou eleições em outras ocasiões, inclusive em 2021, quando o Fatah parecia prestes a ser derrotado.

O vice-secretário-geral da Jihad Islâmica, Mohammed al-Hindi, confirmou a formação da aliança em uma entrevista à AP. Ele destacou que a coalizão apoiará "uma lista nacional unificada", que poderá incluir figuras independentes, em vez de integrantes dos próprios grupos.

A composição da coalizão incluiria um bloco liderado por Mohammed Dahlan, ex-chefe de segurança do Fatah que rompeu com Abbas e foi exilado em 2010, após ser expulso de Gaza pelo Hamas. Dahlan mantém laços estreitos com os Emirados Árabes Unidos e atua como conselheiro do governante local, além de ter contatos com autoridades americanas e israelenses.

Essa aproximação é incomum, considerando que os Emirados lideraram os Acordos de Abraão em 2020, enquanto Hamas e Jihad Islâmica estão em conflito com Israel há décadas. A aliança parece refletir, principalmente, a oposição comum ao presidente Abbas, que está no poder desde que seu mandato expirou em 2009. Dimitri Diliani, porta-voz da Facção Democrática Reformista de Dahlan, não detalhou a aliança formal, mas confirmou que as facções estão organizando uma lista para superar diferenças políticas. Outros grupos palestinos também podem participar.

Recentemente, o Hamas informou que Dahlan e o líder do grupo, Khalil al-Hayya, se reuniram no Cairo para discutir formas de "acabar com a monopolização das decisões nacionais e formular uma estratégia nacional abrangente".

Al-Hindi mencionou que a nova frente surgiu após tentativas frustradas de reunir todas as facções palestinas em torno de um consenso. Esforços para integrar Hamas e Jihad Islâmica à Organização para a Libertação da Palestina (OLP), dominada pelo Fatah, também não progrediram.

Um dos principais obstáculos é o reconhecimento de Israel pela OLP. O Hamas afirma aceitar a criação de um Estado palestino em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental, mas não reconhece formalmente Israel, enquanto a Jihad Islâmica adota uma postura ainda mais rígida. Ambos são categorizados como grupos terroristas pelos Estados Unidos e por outros países ocidentais.

Al-Hindi afirmou que a Jihad Islâmica, que tradicionalmente não participa das eleições organizadas pela Autoridade Palestina, não lançará candidatos próprios, apoiando, em vez disso, "uma lista nacional que seja acordada".

O pleito está previsto em meio à persistente violência em Gaza e na Cisjordânia. Um cessar-fogo, em vigor desde outubro de 2025, reduziu os combates mais intensos em Gaza, embora Israel continue a realizar ataques e controlar uma parte maior do território. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 74 mil palestinos morreram desde o início da guerra, que começou com o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, resultando em cerca de 1.200 mortes e 251 reféns.

De acordo com o plano dos Estados Unidos para implementar o cessar-fogo, grupos palestinos armados deveriam entregar suas armas, enquanto Israel se retiraria do enclave. Al-Hindi declarou que Hamas e Jihad Islâmica aceitaram o plano, mas acusaram Israel de bloquear sua execução. "Quando as obrigações de Israel na primeira fase forem cumpridas, passaremos a discutir a segunda fase, que inclui a questão das armas", afirmou.

A Jihad Islâmica participou do ataque de 7 de outubro e manteve reféns israelenses, mas al-Hindi assegurou que o grupo não participou do planejamento nem foi informado antecipadamente pelo Hamas. "Fomos surpreendidos pelas notícias na mídia sobre o que havia acontecido, mas, como movimento de resistência, rapidamente nos envolvemos nesses confrontos", declarou.

Ele reconheceu que, diante da destruição em Gaza e do alto número de mortos, crescem os questionamentos entre os palestinos sobre o custo da ofensiva. Apesar disso, defendeu que o ataque foi necessário para evitar que a questão palestina fosse ofuscada pela normalização das relações entre Israel e nações árabes.

Al-Hindi também mencionou que o Irã, um dos principais apoiadores dos grupos militantes palestinos, agora está concentrado na guerra em curso e na pressão econômica dos EUA. Contudo, ele reafirmou que a Jihad Islâmica continuará suas atividades com ou sem apoio iraniano. Fonte: Associated Press.