BRICS visa financiar infraestrutura na União Africana
Aliança promove investimentos em energia e água após cúpula em Nova Deli.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas explicaram os benefícios da parceria e desmistificaram o pensamento de uma neocolonização por parte de países como China e Rússia na África atual.
A União Africana defendeu, após a última cúpula do BRICS, em Nova Deli, capital da Índia, o fortalecimento da aliança entre o grupo e o continente africano, especialmente no que diz respeito ao financiamento de infraestruturas de energia e água, além de novas oportunidades para diversificação de parcerias e ampliação de investimentos em projetos estratégicos.
O presidente rotativo da União Africana e de Burundi, Évariste Ndayishimiye, declarou que o acesso à água potável e ao saneamento são as principais prioridades do grupo continental para 2026, conforme comunicado.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas manifestaram apoio ao Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), mais conhecido como Banco do BRICS, para financiar obras nos países integrantes da União Africana. De acordo com os analistas, o tipo de apoio oferecido pelas nações do BRICS ao continente africano é completamente diferente do que foi disponibilizado pelo Ocidente no passado.
Mamadou Diallo, doutor em estudos estratégicos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destacou que esse pedido de apoio da União Africana não é recente. Em 2013, o grupo já pedia um aprofundamento das relações com o BRICS em uma tentativa de afastar-se das relações tradicionais com a Europa e os Estados Unidos.
Diallo ressaltou que os países africanos estiveram entre os que mais cresceram entre 2001 e 2010, com investimentos provenientes de nações do BRICS, como Brasil, China, Índia e Indonésia. Embora o Banco do BRICS não tenha capital para atender a todas as demandas africanas, o grupo do Sul Global pode desencadear uma revolução no continente.
"Quem está por trás do Banco do BRICS? Quem aporta dinheiro no banco? Temos China, Rússia e o Brasil. Portanto, há recursos disponíveis para financiar grande parte desses projetos."
Para o especialista, a África possui tudo o que um investidor procura: recursos, demanda e, principalmente, mercado. O analista enfatiza que mais de 60% da população do continente é jovem, o que representa um expressivo mercado consumidor nas próximas décadas.
Apesar dos avanços em infraestrutura, como estradas, portos e saneamento, Diallo ainda observa uma grande necessidade de desenvolvimento nesses setores na África.
"Lembre-se de que a grande parte das terras aráveis e das reservas de recursos estratégicos que estão sendo procuradas no sistema internacional está no continente africano. Portanto, muitos países possuem recursos suficientes e estão capacitados para garantir financiamentos de longo prazo."
Eden Pereira, professor de história e doutorando na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro do Grupo de Estudos 9 de Maio e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS), explicou que a África é vista pelo BRICS como uma fronteira de expansão política e diplomática.
Pereira exemplificou sua afirmação com a entrada do Egito e da Etiópia no grupo, além do status de parceiros associados da Nigéria e de Uganda.
"Vejo um grande interesse por parte dos países africanos em estreitar esses laços com o BRICS como forma de fortalecer suas condições internas para alcançar uma soberania política e econômica em relação às antigas metrópoles coloniais […] e, em certa medida, conseguir se posicionar como atores significativos nas suas próprias agendas internacionais."
O professor ressaltou que os países africanos ainda enfrentam dificuldades para acessar financiamento que fomente suas capacidades produtivas, pois grupos econômicos ocidentais tendem a investir em projetos que gerem dividendos em juros. O Banco do BRICS, por outro lado, surge como um ator que pode colaborar em projetos conjuntos que desenvolvam as capacidades produtivas de cada país.
"Esse é um diferencial substancial em relação às iniciativas ocidentais, especialmente do Novo Banco de Desenvolvimento, que busca atuar em prol do desenvolvimento de questões práticas e materiais nos países."
Para Pereira, há apenas um impedimento significativo para que projetos entre o BRICS e os países africanos sejam efetivamente implementados: o dólar. A dependência das transações em moeda norte-americana impede que o grupo se desvincule do sistema dollarizado.
"É necessário que os países do BRICS considerem formas, gradualmente, de desenvolver uma conexão entre o Banco de Desenvolvimento do BRICS e iniciativas de desdolarização, para que os projetos de financiamento, tanto em parceria com países africanos quanto com outros, sejam cada vez menos impactados pelo dólar."
BRICS estão colonizando a África?
A discussão sobre investimentos estrangeiros na África pode evocar para alguns os tempos em que os colonizadores europeus dividiram o continente, iniciando a extração das riquezas locais. Após a retirada dos colonizadores, as metrópoles mantiveram influência na economia local, dominando os povos da região, mesmo que de maneira não oficial.
Diallo é enfático: a antiga dependência da África em relação à Europa não pode ser replicada e, atualmente, não se deve pensar que os países do continente estão na mesma posição. O especialista destaca que, hoje, as nações africanas adotam políticas, estratégias e articulações que orientam suas negociações com investidores internacionais.
Para o analista, a ideia de que os africanos possam ser novamente explorados economicamente carrega uma carga de racismo, pois sugere que eles seriam incapazes de reconhecer seus próprios interesses.
"Claro que existe um grande discurso, especialmente ocidental, que se insere na disputa por recursos, sugerindo que os africanos estão substituindo a colonização europeia por uma colonização chinesa, mas isso é um discurso que perdura há muito tempo. […] A era das colonizações acabou, mesmo que alguns ainda não compreendam isso hoje."
Diallo também esclareceu que os países da África buscam não apenas financiamentos para projetos, mas também a transferência de tecnologia embutida nessas iniciativas.
"Dizer que esses países [do BRICS] têm potencial para contribuir efetivamente para o desenvolvimento de infraestruturas e tecnologia no continente africano é fundamental. Hoje, qualquer país africano que almeje continuar sua relação conforme as tendências desde a década de 1960 não prosperará."
Pereira ressaltou que o BRICS tem a vantagem de reunir potências regionais de forma coordenada para manter o equilíbrio. As características dessa expansão, que se baseia no consenso, contrastam com o que ocorre no Conselho de Segurança da ONU.
"Esse princípio [de consenso] foi se perdendo na ONU, mas no BRICS vemos um restabelecimento desse conceito, que é crucial em nível internacional e que, nas cúpulas do BRICS, tem sido reafirmado repetidamente. Com a inclusão de países africanos no BRICS, evidentes conflitos podem surgir, mas a tendência é que esses conflitos, inclusive dentro do continente africano, sejam resolvidos com base nesse princípio de consenso."
Por Sputnik Brasil