Seis são denunciados por fraude ambiental e organização criminosa em Bauru
Ministério Público aponta desvio de R$ 5 bilhões em licitações para manejo de lixo urbano.
Os promotores do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Bauru, interior de São Paulo, denunciaram seis suspeitos de operar uma fraude de R$ 5 bilhões em licitações para o manejo do lixo urbano no município. Entre os acusados de corrupção e contratação ilegal estão a secretária de Meio Ambiente, Cilene Chabuh Bordezan, e o executivo da Estre Ambiental, Hamilton Libório Agle. Segundo o Ministério Público, os denunciados "instalaram e fizeram da Prefeitura Municipal de Bauru um palco de atuação de organização criminosa".
O Estadão pediu manifestação de Cilene e Hamilton, cuja defesa se encontra em aberto.
Ambos estão presos desde o último dia 9, quando a Operação Cavalo de Troia foi deflagrada. A fraude foi interrompida após o Tribunal de Contas do Estado suspender o edital bilionário.
A Promotoria detalha na denúncia de 317 páginas que a organização criminosa supostamente liderada por Cilene e Hamilton "não se limitou à prática episódica ou ocasional de delitos".
De acordo com a denúncia, as investigações revelaram uma estrutura estável e permanente, integrada por agentes públicos e privados que atuaram de forma coordenada, consciente e organizada, influenciando processos decisórios e assegurando benefícios econômicos indevidos para os integrantes do grupo.
Além de Cilene e Hamilton, foram denunciados Sara Moura de Jesus, ex-secretária adjunta do Meio Ambiente; Talita de Andrade Soares Chieregatti, funcionária da Estre; Vitor João de Freitas Costa, ex-secretário dos Negócios Jurídicos, onde foram apreendidos R$ 240 mil em espécie; e Mário Luiz Silvério, coordenador técnico ligado à FIPE. O Estadão busca contato com as defesas dos citados.
Caráter replicável
Os promotores Ana Maria Romano, Lucas Maester Colombo e Nelson Aparecido Febraio Junior explicam que a "estrutura concebida possuía caráter replicável e foi planejada para ser reproduzida em diferentes entes federativos". Eles priorizaram municípios onde a empresa já tinha inserção econômica significativa, especialmente através de aterros sanitários.
Segundo os promotores, essa circunstância proporcionava conhecimento privilegiado da realidade local e das futuras oportunidades de negócio. A denúncia afirma que Cilene Bordezan atuava como "autêntica preposta privada" da empresa Estre Ambiental na administração municipal. Ela foi exonerada por ordem da prefeita Suéllen Rosim (PSD).
A investigação revelou que diálogos interceptados mostravam um "sentimento de apropriação do certame". Cilene se referia ao negócio como "minha concessão" e mantinha alinhamentos de diretrizes com Hamilton, a quem chamava de "amorzinho".
A ex-secretária realizou "encontros reservados" na sede da Estre em São Paulo e em uma base operacional em Bauru, considerada clandestina. Dados do celular de Mário Luiz Silvério mostraram que Cilene participava da elaboração de respostas a impugnações e ao Tribunal de Contas, com mensagens como "manda bala".
Os promotores ressaltam que a atuação consolidada no setor local de resíduos, aliada ao potencial econômico do contrato, fez de Bauru um ambiente ideal para o modelo criminológico da organização. Eles concluem que o intuito não era apenas vencer licitações, mas criar condições que tornassem essa vitória mais provável.