ECONOMIA

Lagarde considera resposta moderada do BCE adequada para controlar inflação

Presidente do BCE ressalta a importância de um ajuste cauteloso diante dos desafios econômicos atuais.

Por Estadao Conteudo Publicado em 28/09/2026 às 12:09
A presidente do BCE, Christine Lagarde ANSA

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, afirmou nesta segunda-feira, 28, que a instituição considera apropriada uma resposta moderada de política monetária para manter a inflação sob controle, diante do choque de energia e do cenário ainda cercado por elevada incerteza. Em audiência no Parlamento Europeu, ela reiterou que o BCE não reage diretamente aos preços de energia, mas aos riscos de que a alta se incorpore à inflação.

Lagarde disse que a inflação da zona do euro avançou a 3,2% em agosto, de 2,9% em julho, com a inflação de energia acelerando de 10,3% para 14,3%. Já o núcleo, que exclui energia e alimentos, recuou marginalmente a 2,4%.

Segundo ela, até o momento, os salários não mostram resposta material ao choque energético, com a remuneração por empregado desacelerando de 3,6% no primeiro trimestre para 3,3% no segundo.

A presidente do BCE afirmou que a instituição vê inflação mais alta à frente, sobretudo em 2027 e 2028, mas ainda sem sinais de que o choque de energia esteja se tornando persistente. "Não vemos evidências, neste estágio, de que os preços de energia estejam se transmitindo para salários mais altos", disse. Ao mesmo tempo, os juros de longo prazo subiram de forma significativa desde a última reunião.

Lagarde reiterou que o BCE segue em um "caminho intermediário" na condução da política monetária. Segundo ela, o choque é grande demais para ser ignorado, mas uma resposta moderada é apropriada neste momento. O BCE elevou neste mês suas três principais taxas de juros em 25 pontos-base.

Na atividade, Lagarde avaliou que a economia da zona do euro permaneceu resiliente no segundo trimestre e que o crescimento sólido deve ter continuado no terceiro.

O mercado de trabalho também segue robusto, embora emprego e força de trabalho estejam desacelerando, ponderou.

A presidente do Banco Central Europeu afirmou ainda que os efeitos precisos da inteligência artificial (IA) sobre a economia ainda são incertos, mas ponderou que a incerteza "não é motivo para inação". Na audiência no Parlamento Europeu, ela disse que a instituição precisará observar atentamente como a tecnologia afeta produtividade, investimento, mercado de trabalho, condições financeiras e inflação.

Segundo Lagarde, a IA pode elevar a produtividade das empresas e, ao longo do tempo, reduzir custos e pressões inflacionárias.

A magnitude e a velocidade desse efeito, contudo, dependerão da adoção da tecnologia. Pesquisa recente do BCE mostra que 38% das empresas da zona do euro já faziam uso ao menos moderado de IA no fim de 2025, mas apenas 7% relatavam utilização significativa, mencionou a presidente do BCE.

A dirigente ressaltou que a expansão da IA exigirá investimentos substanciais em capacidade computacional, centros de dados, energia e treinamento de trabalhadores. Ela observou que os investimentos relacionados à tecnologia estão crescendo na Europa, embora ainda fiquem atrás dos Estados Unidos.

Lagarde também alertou para riscos nos mercados financeiros. Segundo ela, as avaliações das bolsas globais estão concentradas em um grupo relativamente pequeno de empresas ligadas à IA, que também vêm ampliando rapidamente o financiamento por dívida. Uma reavaliação abrupta das perspectivas dessas companhias poderia provocar correções nos mercados e atingir investidores e a economia da zona do euro.

No emprego, Lagarde afirmou que mais de metade dos trabalhadores já utiliza IA no trabalho e que, até agora, as empresas continuam contratando em termos líquidos. O impacto de longo prazo, porém, segue em aberto: "A questão central é se a IA irá principalmente complementar os trabalhadores ou substituí-los."