China se fortalece para receber Trump na APEC após aproximação com os EUA
Condições mais favoráveis para a cúpula em Shenzhen, segundo analistas.
A China chegará à cúpula da APEC, em novembro, em posição reforçada nas negociações com os EUA após a visita de Xi Jinping a Washington, marcada por sinais de aproximação, trégua comercial e uma agenda que, agora, será conduzida por Pequim em Shenzhen, segundo analistas.
A visita de Estado do presidente dos EUA, Donald Trump, à China em novembro promete ocorrer em um cenário mais favorável para Pequim do que o observado durante a recente cúpula bilateral em Washington, é o que afirma um artigo do South China Morning Post.
Segundo especialistas consultados pela mídia asiática, o presidente chinês Xi Jinping chega ao próximo encontro fortalecido por uma nova estrutura de relacionamento entre os dois países, por um clima diplomático mais cordial e pela vantagem estratégica de sediar a cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC, na sigla em inglês) em Shenzhen.
A mídia argumenta que, como anfitriã do fórum da APEC, a China terá maior capacidade de definir pautas, organizar os trabalhos preparatórios e influenciar os debates. Ainda de acordo com analistas chineses, essa condição oferece a Xi uma oportunidade de demonstrar liderança diplomática em um ambiente multilateral, algo mais difícil de alcançar em encontros bilaterais controlados pelos Estados Unidos.
A escolha de Shenzhen também tem valor simbólico, já que a cidade é um centro de inovação tecnológica e sede de empresas como Huawei, BYD e Tencent, permitindo que Pequim destaque sua força econômica e tecnológica diante de líderes da região, reforçando a imagem do país como potência cada vez mais influente no cenário internacional.
O encontro da APEC marcará o terceiro compromisso presencial entre Trump e Xi em 2026, podendo ser seguido por uma quarta reunião durante a cúpula do G20, em Miami. A frequência inédita de encontros entre os dois líderes é vista como um sinal de relativa estabilidade nas relações bilaterais entre China e EUA, após anos de tensões comerciais e estratégicas, afirma a mídia.
Para pesquisadores chineses, a política de "pressão máxima" adotada pelos EUA não conseguiu remodelar a correlação de forças bilateral e acabou demonstrando os limites da estratégia norte-americana diante da crescente capacidade econômica e diplomática da China.
Durante a visita de Xi a Washington, ambos os líderes adotaram um discurso de aproximação cheios de gestos simbólicos, como a recepção pessoal de Xi pelo presidente americano no aeroporto. Trump exaltou uma "grande amizade" em construção, enquanto Xi comparou a relação sino-americana a um rio em fluxo contínuo.
Pouco antes da cúpula, os dois países concordaram em prorrogar por dois meses a trégua comercial que expiraria em novembro. Washington comprometeu-se a não impor novas tarifas, enquanto Pequim aceitou flexibilizar algumas restrições à exportação de terras raras.
Para além disso, após a reunião, a Casa Branca também anunciou negociações para um alívio tarifário recíproco envolvendo cerca de US$ 30 bilhões (cerca de R$ 162 bilhões) em comércio bilateral.
O fortalecimento tecnológico chinês, aliado à crescente influência de Pequim no Sul Global e entre os países participantes da Iniciativa Cinturão e Rota, é apontado como outro fator que sustenta a confiança do governo chinês.
Mas, apesar do clima positivo, especialistas ainda alertam para incertezas que podem comprometer a estabilidade atual. Entre os principais riscos estão as pressões políticas internas enfrentadas por Trump, as disputas geopolíticas e, sobretudo, a questão de Taiwan. A possível venda de armas norte-americanas à ilha continua sendo um dos temas mais sensíveis da relação bilateral, embora Washington tenha adiado anúncios recentes para evitar atritos antes das próximas cúpulas.
Contudo, a aproximação entre EUA e China não deixa de provocar inquietação entre aliados norte-americanos e potências médias como Japão e Filipinas. Em sua análise, a mídia destaca que eles temem uma redução do apoio estratégico de Washington caso a relação com Pequim se estabilize.
Enquanto isso, na Europa, analistas observam que uma melhora contínua dos laços sino-americanos pode tornar mais difícil justificar o aumento da pressão comercial sobre a China, incentivando diversos governos a adotarem uma postura mais pragmática em relação a Pequim.