POLÍTICA

Seminário sobre biossegurança discute controle de armas em Moscou

Evento reúne especialistas globais e representantes do Brasil na luta pelo desarmamento biológico.

Por Sputnik Brasil Publicado em 23/09/2026 às 09:17
Diplomata brasileiro discute desarmamento em seminário sobre armas biológicas em Moscou. © Sputnik Brasil / Rennan Rebello

Moscou se tornou o centro das discussões globais sobre biossegurança nesta quarta-feira (23). A capital russa sedia, até amanhã, o Seminário sobre a Implementação Nacional da Convenção sobre Armas Biológicas, reunindo especialistas e autoridades. Na pauta, estão temas cruciais como a cooperação e a união de esforços voltados ao desarmamento.

Presente no evento, o embaixador Frederico Meyer, representante permanente do Brasil na Convenção sobre o Desarmamento em Genebra e presidente do Grupo de Trabalho para o Fortalecimento do Tratado, conversou com a reportagem da Sputnik Brasil. Na ocasião, o diplomata enfatizou o papel estratégico das nações na união de esforços voltados ao desarmamento biológico global e seu trabalho em promover o consenso entre os países.

"A gente quer chegar a um resultado em dezembro [quando termina o grupo de trabalho do qual preside] e tudo é resolvido por consenso. Então todo mundo tem que apoiar. Mas o que é o consenso? Consenso é uma coisa que ninguém gosta, mas que todo mundo pode viver com aquilo. E esse é o meu trabalho", disse.

O diplomata brasileiro detalhou que sua atuação na Suíça cobre frentes cruciais do desarmamento, desde armas leves até arsenais nucleares e biológicos. Nesse cenário, ele apontou que o engajamento de atores de peso como a Rússia, os EUA e a China é indispensável para o sucesso dos tratados.

"O nosso trabalho é desarmar o mundo. Não é fácil, mas a gente cuida de tudo. Exceto química, mas nuclear, biológica, armas leves, tudo. A gente já tem 93% do texto semiaprovado [do grupo de trabalho]. A França, Reino Unido e Rússia são os três depositários da Convenção. Além disso, a Rússia é um ator preponderante, se tem alguns europeus, EUA e China que são países importantes nesse jogo", comenta.

Entraves políticos são obstáculos a serem superados

Outro ponto levantado por Meyer é a complexidade em lidar diariamente em múltiplas frentes diplomáticas, em busca de consenso entre os Estados, o que torna o desafio, além de técnico, político, a fim de articular consensos globais em Genebra para frear o avanço de novas ameaças armamentistas.

"O cenário político internacional é refletido em todas as reuniões, seja em Genebra, seja na Organização Internacional do Trabalho, seja Direitos Humanos, seja desarmamento, isso daí reflete. A gente costuma dizer que o importante não é a mensagem, é o mensageiro. A situação internacional é difícil", destaca.

O embaixador também ponderou que o controle de proliferação tornou-se altamente complexo devido à natureza dual da tecnologia biológica, que está cada vez mais acessível. Na prática, insumos científicos civis podem ser facilmente desviados e adaptados em instalações improvisadas para a fabricação de agentes com fins bélicos.

"Não se conseguem controlar [totalmente as armas biológicas]. Isso é impossível. Antigamente, quando houve essa convenção, para se produzir uma arma biológica se necessitava de um grande edifício. Hoje em dia, se faz uma arma biológica no fundo do quintal. Pode-se usar uma fábrica de cerveja para produzir arma biológica. Então, é difícil você verificar porque tem um uso dual para o bem e para o mal", observa.

Rússia busca cooperação estratégica com os países

Durante a sessão plenária inaugural, foi exibida uma mensagem em vídeo do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov. No pronunciamento, o chanceler ratificou a Convenção sobre Armas Biológicas como uma das prioridades centrais da política externa russa na atual geopolítica.

"A Rússia, como um dos países depositários da Convenção, considera como principais prioridades nesta direção o desenvolvimento de um protocolo universal, juridicamente vinculativo e não discriminatório para a Convenção, além do estrito cumprimento, em nível nacional, das obrigações da convenção pelos Estados-partes. Defendemos a criação de um sistema para avaliar os avanços científicos e tecnológicos na esfera biológica e para monitorar as pesquisas correspondentes", conclui.

Em um mundo onde a tecnologia acelera tanto a ciência quanto o potencial bélico, conter o perigo das armas biológicas e toxínicas exige vigilância constante. O seminário em Moscou reforça que o diálogo multilateral e as iniciativas governamentais são as ferramentas mais eficazes para transformar discussões técnicas em compromissos reais de desarmamento e biossegurança global.