Descontrole ambiental promovido pela Câmara agrava cenário futuro do agronegócio, diz Ipam
Instituto alerta para riscos à produtividade agrícola e aumento da vulnerabilidade diante de mudanças climáticas com aprovação de projetos de lei que flexibilizam proteção ambiental.
O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) alertou, nesta quinta-feira (21), que a aprovação de uma série de projetos de lei pela Câmara dos Deputados durante o chamado "Dia do Agro" pode agravar os riscos climáticos para o agronegócio brasileiro. Segundo nota da entidade, as medidas enfraquecem a fiscalização ambiental, a proteção de áreas preservadas e a implementação de políticas climáticas, aumentando a vulnerabilidade da produção agrícola em um cenário de mudanças climáticas mais severas.
De acordo com o diretor executivo do Ipam, André Guimarães, o agronegócio brasileiro depende diretamente da manutenção das florestas e do regime de chuvas para garantir produtividade e estabilidade nas safras. "O que está sendo atacado por esses projetos é o meio ambiente, mas também a produtividade do País, a estabilidade do plantio e a capacidade do Brasil de colocar comida no prato de boa parte do planeta", afirmou.
Entre as medidas mais criticadas por entidades ambientais está o Projeto de Lei 2.486/2026, aprovado na quarta-feira, que retira quase metade do território da Floresta Nacional do Jamanxim e cria a Área de Proteção Ambiental do Jamanxim, em Novo Progresso (PA). O texto, que ainda será analisado pelo Senado, propõe a redução dos limites da Flona do Jamanxim para viabilizar a passagem da ferrovia EF-170 (Ferrogrão) na região.
O substitutivo desmembra 486.438 hectares da floresta, de um total de 1,3 milhão de hectares, para conversão em área de proteção ambiental — o que permite maiores intervenções na área. Com isso, a Flona do Jamanxim passaria a contar com cerca de 814.686 hectares. O projeto prevê que tanto a Área de Proteção Ambiental quanto a Flona do Jamanxim serão administradas pelo Instituto Chico Mendes.
O Ipam também destacou relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), segundo o qual o Brasil deverá responder por quase metade do crescimento da oferta global de alimentos até 2050. Ainda conforme o instituto, cerca de 90% da agricultura brasileira depende da chuva, tornando a instabilidade climática um fator de risco econômico e social para toda a cadeia produtiva.
Além disso, o Ipam citou estudo publicado na revista científica Nature, apontando que 28% das propriedades de soja e milho do Centro-Oeste já operam fora das condições climáticas consideradas ideais. Sem investimentos em adaptação e políticas públicas voltadas ao clima, esse percentual pode chegar a 50% na próxima década e a 70% em 30 anos, comprometendo a viabilidade econômica da atividade agrícola, segundo a pesquisa.