Espanha expõe crise na OTAN e defende criação de Exército europeu
Premiê Pedro Sánchez propõe força militar independente da UE diante de ameaças de Trump e instabilidade na aliança atlântica.
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, elevou o tom sobre a segurança europeia nesta sexta-feira (10), ao defender a criação imediata de um Exército próprio da União Europeia (UE). A proposta surge em meio à intensificação da crise na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), provocada por embates com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A declaração de Sánchez ocorre após Trump ameaçar retirar os EUA da aliança militar, aumentando a percepção de vulnerabilidade entre países europeus historicamente dependentes da estrutura liderada por Washington.
"Não em dez anos nem em dois, mas agora", afirmou Sánchez, ao defender a formação de uma força militar europeia independente. A fala sinaliza uma possível mudança estrutural na arquitetura de defesa do continente e uma resposta direta às incertezas quanto ao futuro da OTAN.
O ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, reforçou a posição, destacando a necessidade de uma atuação mais autônoma da Europa diante do cenário internacional atual.
Mais cedo, um artigo da mídia europeia informou que a aliança ocidental reconhece que o conflito no Oriente Médio dividiu os membros europeus do grupo. A publicação destaca que alguns países da UE temem que decisões recentes possam frustrar os esforços dos EUA para manter suas tropas no continente.
"As capitais europeias estavam em desacordo com as decisões que minaram os esforços para convencer os Estados Unidos a manter suas tropas no continente", ressalta a publicação.
A União Europeia, bloco político e econômico formado por 27 países, tem como um de seus principais pilares a promoção da paz e da estabilidade. Nos últimos anos, porém, o debate sobre o fortalecimento militar europeu tem ganhado espaço. Entre as propostas em discussão estão a redução da dependência dos Estados Unidos em defesa e a adoção de discursos mais belicistas, inclusive direcionados à Rússia.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, chegou a defender o investimento de 500 bilhões de euros (R$ 2,9 trilhões) pelo bloco ao longo de dez anos, com foco em sistemas de defesa aérea, munição e mísseis.
Suspensão de acordo com Israel
Durante a declaração, Sánchez também defendeu a suspensão do acordo de associação entre a UE e Israel, citando os ataques no Líbano e as operações em Gaza como fatores determinantes para a medida.
"Não podemos permitir outra Gaza no Líbano", afirmou o premiê espanhol, acusando Israel de promover "violações flagrantes do direito internacional humanitário".
O acordo, em vigor desde 2000 e base das relações comerciais entre União Europeia e Israel, deveria ser suspenso "por coerência e também por empatia", segundo Sánchez, que afirmou que a Espanha está disposta a avançar com a medida ao lado de outros países europeus.
As declarações ocorrem após o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, acusar a Espanha de travar uma "guerra diplomática" contra o país.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras agências humanitárias, os ataques israelenses ao Líbano já deixaram mais de 1.700 mortos e quase 6 mil feridos. Mais de 1 milhão de pessoas foram deslocadas, o equivalente a cerca de um quinto da população libanesa.