ECONOMIA

Galípolo aponta fatores estruturais como causa dos juros altos no Brasil

Presidente do Banco Central destaca, em palestra na FEA-USP, que a elevada taxa de juros no país decorre de questões históricas e estruturais, e não apenas conjunturais.

Publicado em 10/04/2026 às 14:14
Galípolo aponta fatores estruturais como causa dos juros altos no Brasil Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, afirmou nesta sexta-feira (10), durante palestra para aulas da FEA-USP, que a razão para a elevada taxa básica de juros no Brasil é mais estrutural do que conjuntural. Segundo ele, essa discrepância, que historicamente representa um desafio para o país, está enraizada em fatores de longo prazo.

"Acho que houve grandes momentos e desafios na história econômica brasileira. Se você estava aqui nos anos 1950, provavelmente estaria estudando industrialização, substituição de importação, e como o Brasil deixaria de ser uma grande fazenda de café para se tornar uma sociedade com parque industrial mais complexo e diversificado", afirmou Galípolo, dirigindo-se à plateia.

Ele lembrou que, nas décadas de 1970 e 1980, o foco dos debates era a inflação. "Historicamente, países que sofreram inflação acima de três dígitos tiveram episódios agudos, mas curtos. O Brasil teve 15 anos de inflação acima de três dígitos, o que gerou uma vasta bibliografia sobre o tema", explicou.

No cenário atual, o debate gira em torno dos juros. "Agora, vocês têm uma discussão a ser feita: por que o Brasil tem uma taxa de juros de 15%, por exemplo, 14,75%? A pergunta que me fazem no exterior é: como vocês mantêm uma taxa de 14,75% com a economia crescendo, desemprego em mínimo histórico, pleno emprego e inflação fora da meta?", questionou Galípolo.

O presidente do BC reconheceu a complexidade do tema. “Mesmo com uma taxa de juros tão alta, veja a dissonância: a Curva de Phillips não está em boa fase no Brasil — juros em 14,75% e o menor desemprego da série histórica. É uma anomalia. Talvez o desafio desta geração seja descobrir como normalizar a política econômica no Brasil.”

Galípolo acrescentou: “A sensação é que precisamos usar doses cavalares do remédio, por um período muito maior, para obter um efeito semelhante ao que outros países fornecem com doses menores.”

Cartão de crédito

Segundo Galípolo, esse padrão se repete há décadas. Para ilustrar, ele citou um dos diretores do Banco Central: "Quando comparado com o cartão de crédito, por exemplo, 14,75% é bastante alto, não ao ano, mas ao mês. Essa é a distância entre esses táxons, que é a mais utilizada pela maior parte da população."

Para ele, isso ajuda a explicar o impacto de pequenas reduções na taxa de juros do cartão de crédito. "Se você tem uma taxa de 15% ao mês, a sensibilidade é baixa. Existem outros fatores externos ao Banco Central, como a política de crédito, que deveria ser o principal canal de transmissão da política monetária", ponderou.

Galípolo destacou ainda uma investigação brasileira: cerca de 40 milhões de pessoas utilizam cartão de crédito, com inadimplência de 60%. “Se um avião cai 60% das vezes, ele não deveria existir, está errado, há um erro de concepção”, comparou. “Um produto com 60% de inadimplência, que depois cai para 37 milhões de pessoas em outros impostos, ainda elevado a 7% ao mês, cria um problema relacionado ao arranjo do sistema”, acrescentou.

Ele ressaltou a importância de repetir essa informação, pois muitos brasileiros não consideram ter dívidas enquanto não estão em atraso. "O limite do cartão de crédito é visto como parte da renda disponível para emergências. O rotativo é para emergências, mas é o tipo de crédito mais caro que existe", concluiu o presidente do BC.