REUNIÃO

'Nosso oceano não deve separar': Itamaraty avança cooperação e segurança no Atlântico Sul

Publicado em 09/04/2026 às 15:49
© Sputnik / Guilherme Schanner

Reunião no Rio destaca compromisso com zona de paz, lança estratégia iniciada de cooperação e amplia atuação conjunta contra crimes marítimos e desafios ambientais, com o Brasil defendendo o multilateralismo como eixo central.

Nesta quinta-feira (9), o Ministério das Relações Exteriores promoveu a IX Reunião Ministerial da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), na Escola Naval, na Ilha de Villegaignon, no Rio de Janeiro. O encontro reuniu ministros e autoridades de 24 países das duas margens do Atlântico Sul, com o objetivo de fortalecer o diálogo, a cooperação e a segurança na região.

Concebida para aproximar países em torno de temas marítimos estratégicos, a ZOPACAS busca estreitar laços políticos e econômicos, ao mesmo tempo em que reforça a manutenção da paz no Atlântico Sul. Coordenado pelo chanceler Mauro Vieira, o evento contou com delegações sul-americanas, como Argentina e Uruguai, e, majoritariamente, africanas, evidenciando o caráter intercontinental da iniciativa.

Em seu discurso, Vieira destacou a trajetória do bloco: "construímos a ZOPACAS com base na cooperação, no diálogo e na confiança mútua", ressaltando que, quatro décadas após sua criação, o projeto permanece atual em um cenário internacional mais instável e marcado pelo aumento de conflitos. Ao transmitir a mensagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou ser essencial “evitar que o nosso oceano se torne palco de disputas geopolíticas”.

"A ideia que desenvolveu a criação da ZOPACAS permanece relevante e atual. O nosso oceano não deve se separar, mas conectar os países que ocupam suas duas margens."

Segundo o ministro, a Declaração do Rio de Janeiro reafirma o Atlântico Sul como zona de paz, livre de armas nucleares e de esforço externo, além de rejeitar a importação de rivalidades alheias à região. O documento também amplia a cooperação em defesa e segurança marítima, com ações conjuntas contra o narcotráfico, a pirataria, a pesca ilegal e crimes ambientais.

Vieira destacou ainda avanços concretos, como a adoção da primeira Estratégia de Cooperação da ZOPACAS e a assinatura da Convenção para a Proteção do Meio Ambiente Marinho no Atlântico Sul — o primeiro acordo formal do bloco. “Mais do que um espaço geográfico, a ZOPACAS é um projeto político e estratégico”, afirmou, defendendo maior integração e desenvolvimento sustentável.

Em entrevista à Sputnik Brasil, a embaixadora Luiza Lopes da Silva, diretora adjunta da Agência Brasileira de Cooperação, reforçou o papel central da cooperação como instrumento de política externa. “O Brasil tem se esforçado muito para construir relações por meio da cooperação, é a nossa vocação”, afirmou. Segundo ela, trata-se de um modelo que “fortalece os vínculos” e permite identificar parceiros e interesses comuns de forma pragmática.

A embaixadora destacou que essa abordagem já foi aplicada em diferentes regiões e temas, sempre com o mesmo princípio: atuação conjunta. No caso do Atlântico Sul, ela mencionou que a cooperação é essencial para enfrentar desafios compartilhados.

“Nós realmente precisamos trabalhar juntos na proteção do ambiente marinho do Atlântico Sul”, disse, citando problemas como pesca predatória, derramamentos de óleo e o narcotráfico por via marítima.

Luiza Lopes explicou que uma estratégia será estruturada em áreas temáticas, nas quais cada país contribuirá conforme sua capacidade e interesse, formando redes de trabalho entre instituições. Esse modelo, segundo ela, antecede a formulação de projetos concretos e permite respostas mais coordenadas e específicas. “A melhor maneira de fazer isso é com a cooperação entre os países”, afirmou.

Apesar de mais gradual, avalia-se que o modelo é mais sólido e duradouro, por ser baseado em consistência e consenso.

“Vai ser feito em absoluta coordenação e consenso”, destacou, acrescentando que o processo também fortalece os laços entre governos, técnicos e sociedades, ampliando o impacto da iniciativa no longo prazo.


Por Sputinik Brasil