Geral

Silêncio cúmplice do Ocidente diante de ameaças dos EUA ao Irã contradiz 'valores universais', dizem analistas

Publicado em 08/04/2026 às 02:15
© AP Photo / Vahid Salemi

A mais recente ameaça do presidente dos EUA, Donald Trump, contra o Irã — que declarou que 'morrerá toda uma civilização' no país persa — revela a total inoperância do sistema diplomático ocidental, disseram analistas à Sputnik.

A ideia de apagar uma sociedade inteira do mapa vinda do mandatário do país sede da Organização das Nações Unidas (ONU) é no mínimo incongruente, segundo analistas entrevistados pela Sputnik.

A cumplicidade do Ocidente em relação à "brutalidade neocolonial dos EUA" é resultado de um modelo de governança global que não funciona, de acordo com Jorge Elbaum, sociólogo e analista geopolítico argentino.

"Embora líderes ocidentais manifestem, esporadicamente, desconformidade diante da hegemonia dos EUA, a norma costuma ser a aquiescência. O que estamos testemunhando agora é, precisamente, essa subordinação [...]Ameaçar com possível genocídio sem enfrentar consequências legais ou econômicas, definitivamente, marca o fim da diplomacia tradicional ou, pelo menos, da credibilidade dos fóruns diplomáticos tradicionais", opinou Elbaum.

Mais cedo, trump havia estipulado um prazo final até às 21h desta terça-feira (7) para que o Irã fechasse um acordo e abrisse o estreito de Ormuz. Do contrário, afirmou ele, o país seria fortemente bombardeado e enfrentaria o "inferno",

"Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada. Não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá. [...] Descobriremos esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do mundo [...]", escreveu.

Para Claudia Serrano, doutora em Relações Internacionais da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), é alarmante o silêncio cúmplice de boa parte dos países ocidentais, que costumam se posicionar como defensores dos direitos humanos e da paz mundial, mas se calam quando os EUA ameaçam fazer um país inteiro sumir da face da terra.

Tal atitude, acrescentou ela "corrói a credibilidade do Ocidente, já que revela que seus supostos valores só são aplicáveis quando podem ser invocados para tentar prejudicar a imagem ou a economia de seus adversários, e não de maneira universal, quando envolvem um sócio comercial ou militar".

Ao não impor nenhuma única medida coercitiva ou pelo menos manifestar uma condenação que funcione como dissuasor de um possível genocídio, a analista pondera que o Ocidente normalizou a barbárie.

"Esse tipo de retórica evidencia uma profunda crise do direito internacional. O sistema de governança global, personificado nas Nações Unidas, é incapaz de impor igualdade jurídica", disse Serrano à Sputnik.

Essa assimetria contrasta com as sanções e o isolamento diplomático que Washington e seus aliados impulsionam em prejuízo de outros países, evidenciando que se trata de ferramentas econômicas com intencionalidade política e não instrumentos de justiça, acrescentou Elbaum.

'Os limites foram rompidos em Gaza'

Oliver Santin Peña, analista do Centro de Investigações da América do Norte da UNAM, também comentou em entrevista à Sputnik que a atuação militar de Israel na Faixa de Gaza representou uma ruptura definitiva dos limites éticos e legais internacionais.

Segundo ele, o papel de Tel Aviv tem evidenciado que é possível atacar indiscriminadamente um povo inteiro — no caso o palestino — sem enfrentar consequências tangíveis nem sanções reais por parte da comunidade global.

Essa situação de impunidade, acrescentou, estabeleceu um precedente perigoso, no qual potências como EUA e Israel parecem ter 'carta branca' para agir sem medo de represálias. Além disso, sustenta que a falta de uma resposta contundente tem normalizado a ultrapassagem de sinais vermelhos, permitindo que esses atores exerçam sua vontade política e militar com total liberdade.

Se não se exigir uma prestação de contas real e não se impuserem consequências, a diplomacia continuará operando ainda mais sob a "lei do mais forte", advertiu:

"O mundo precisa urgentemente de um novo modelo de governança que não dependa da vontade de um único país", defendeu ele.

Por Sputinik Brasil