Milei aposta em aproximação com EUA após romper com a OMS, avaliam especialistas
Analistas apontam que presidente argentino busca alinhamento com Washington ao retirar o país da OMS, mas alertam para riscos e perdas em acordos de saúde.
Analistas ouvidos pelo podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, avaliam que o presidente argentino Javier Milei aposta na aproximação com os Estados Unidos ao romper com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Em 17 de março, o governo argentino oficializou a saída da OMS, cumprindo promessa feita por Milei há um ano. A medida repete o gesto do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, que, em 2020, anunciou a retirada de seu país da organização alegando má gestão durante a pandemia de COVID-19. Milei, por sua vez, justificou a decisão como uma busca por maior autonomia nas políticas de saúde.
O doutor em sociologia e professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Eric Cardin, afirma que o anúncio funciona como um "carimbo" de alinhamento ideológico da Argentina com a Casa Branca.
Por outro lado, Cardin destaca que a ruptura pode trazer prejuízos à Argentina, como a perda de garantias oferecidas aos países membros da OMS, incluindo assistência técnica em saúde pública. "A participação na OMS permite até 75% de redução no custo de insumos, vacinas e medicamentos adquiridos por meio do bloco", explica.
"Quando a organização intermedeia a compra de vacinas ou outros produtos essenciais para a saúde, o valor desses itens cai significativamente."
Segundo Cardin, Milei aposta que acordos bilaterais com os EUA possam compensar a ausência da OMS, mas essa possibilidade ainda não se concretizou. "Precisamos ver se a Argentina conseguirá negociar diretamente no mercado de fármacos", pondera.
Outro ponto levantado é que a OMS garante acesso a informações técnicas, produção de medicamentos e partilha de patentes, benefícios dos quais a Argentina abrirá mão. Cardin avalia que, sem esse acesso, a crise no país pode se agravar, pois a Argentina não possui o peso geopolítico necessário para obter vantagens em negociações bilaterais.
"O poder da Argentina em acordos bilaterais é limitado. Hoje, o país não se posiciona como uma potência política como já foi."
Para o especialista, a autonomia alegada por Milei tende a permanecer apenas no discurso, sem se materializar na prática da política internacional.
Beatriz Bandeira de Mello, doutora em relações internacionais pela UERJ, reforça que a decisão de Milei integra uma estratégia de alinhamento com os interesses de Washington, tanto em âmbito nacional quanto internacional.
Mello observa que Milei busca se aproximar de Trump não só em políticas, mas também em gestos e retórica, chegando a declarar que enviaria tropas argentinas ao Irã caso os EUA solicitassem.
"Mais do que uma decisão autônoma, a saída da OMS segue a agenda internacional liderada por Donald Trump."
Ela destaca que a decisão afasta a Argentina de parceiros europeus, principais financiadores da OMS, e acarreta perda de acesso a acordos de cooperação e expertise científica e técnica, essenciais para o avanço das políticas de saúde.
Mello também aponta a ausência de planejamento estratégico do governo Milei para garantir benefícios concretos desse alinhamento. Segundo ela, a expectativa é que os EUA redirecionem recursos retirados da OMS para a Argentina, mas tal aposta é arriscada e baseada em relações pessoais, não institucionais.
"São políticas de curto prazo, sem garantia de continuidade. A aproximação se dá entre Milei e Trump, não entre os governos de forma estratégica."