Dia Mundial de Combate ao Câncer: cera de ouvido indica a presença da doença
A Dra. Kátia Virgínia explica sobre a técnica inovadora que, a partir da análise do cerume, possibilita a identificação precoce de tumores malignos no organismo
O Dia Mundial de Combate ao Câncer, celebrado em 8 de abril, busca aumentar a conscientização sobre a doença que provoca aproximadamente 9,5 milhões de mortes por ano no mundo. O dado é da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), agência especializada da Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com a entidade, no Brasil o câncer é a segunda patologia que mais causa óbitos, superada apenas pelas doenças cardiovasculares.
O diagnóstico precoce é fundamental e uma técnica inovadora desenvolvida na Universidade Federal de Goiás (UFG) deverá ajudar a reduzir o número de mortes no futuro e a elevar as chances de cura dos pacientes. Os pesquisadores brasileiros utilizaram o cerume (cera do ouvido) como marcador biológico para diagnosticar, prever o risco e monitorar a doença no organismo. Trata-se de um rastreamento oncológico de baixo preço, alta precisão e não invasivo, capaz de descobrir o câncer de forma antecipada.
A Dra. Kátia Virgínia, otorrinolaringologista do Hospital de Olhos de Pernambuco (HOPE), explica que “a cera do ouvido é composta por lipídios e proteínas formados pelas glândulas sebáceas e ceruminosas. Ela funciona como depósito de informações do metabolismo, refletindo nosso estado fisiológico. Ao analisar a composição do cerume, os cientistas da UFG contam com o auxílio da Inteligência Artificial para identificar padrões imperceptíveis ao olho humano e, dessa forma, detectar assinaturas químicas associadas a tumores malignos”.
“A pesquisa abrange um número variado de tumores, de diversas origens, e auxilia principalmente na detecção precoce de carcinomas, tipo mais comum de câncer que surge quando as células do corpo começam a crescer de forma descontrolada e anormal. Entre os tipos de carcinoma estão os cânceres de mama, próstata, pulmão, cólon e reto, linfomas e leucemia. Ao pesquisar as reações químicas no cerume, o exame também possui potencial para mapear outras condições clínicas como diabetes ou hepatotoxicidade (danos ao fígado)”, complementa a médica.
O resultado do estudo da UFG foi publicado na ScientificReports, uma das mais importantes revistas científicas do mundo, com sede no Reino Unido. De acordo com a Dra. Kátia Virgínia, “já sabemos que a cera do ouvido é um arquivo de impressão digital da nossa condição de saúde, que possibilita detectar estágios anteriores ao câncer. Isso deverá facilitar muito o tratamento e a prevenção da doença, impactando positivamente no prognóstico dos pacientes”.
Vale lembrar que o cerume é extremamente importante para a proteção, lubrificação e limpeza do canal auditivo. A nova tecnologia, que identifica tumores malignos a partir da substância produzida naturalmente pelo corpo, está em transição da fase de pesquisa acadêmica para a regulação e validação junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ainda não existe uma previsão de lançamento comercial ou de uso clínico de rotina.