Pix do Brasil 'poderia ser uma verdadeira alternativa regional ao SWIFT', afirma especialista
Especialistas destacam o potencial do sistema brasileiro de pagamentos instantâneos para fortalecer a soberania monetária e desafiar a hegemonia internacional do dólar.
O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) voltou sua atenção para o Pix, sistema brasileiro que permite transferências instantâneas por meio de um código de identificação.
De acordo com um documento do USTR, empresas norte-americanas demonstraram preocupação com um suposto tratamento preferencial dado ao Pix pelo Banco Central do Brasil (BC). Lançado em novembro de 2020, o Pix, segundo o órgão dos EUA, poderia prejudicar provedores internacionais de serviços de pagamento eletrônico.
“O Pix pertence ao Brasil e ninguém vai nos obrigar a mudá-lo por causa do serviço que presta à sociedade brasileira”, afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante evento em Salvador (BA).
Em entrevista à Sputnik, o economista mexicano e doutor em Filosofia Josafat Hernández destacou que compreender a relevância dos sistemas de pagamento exige analisar o papel dos Estados Unidos. Atualmente, o país controla o ecossistema global de transferências por meio da Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais (SWIFT), que regulamenta mais de 11.500 instituições financeiras em mais de 200 países.
“Assim, os Estados Unidos têm a capacidade de pressionar diferentes países a excluí-los desse sistema internacional de pagamentos, que também opera em conformidade com o dólar”, explicou o analista mexicano.
“Isso confere à economia norte-americana um enorme poder para controlar fluxos de capital, transações bancárias entre bancos e países e, de certa forma, minar o que poderíamos chamar de soberania monetária de outros países”, acrescentou Hernández.
Como exemplo, em 2022, Estados Unidos e União Europeia decidiram excluir sete bancos russos do SWIFT como parte de sanções ao país. A Rússia resistiu à medida com o Mir, sistema próprio de pagamentos, além de alternativas nacionais como o UnionPay da China e o JCB do Japão.
Posteriormente, Moscou criou o Sistema Nacional de Cartões de Pagamento (NSPK), com o objetivo de centralizar o processamento de pagamentos para emissores internacionais e lançar um cartão russo.
Segundo o doutor em Economia Oscar Rojas, países que desenvolvem sistemas próprios de pagamento buscam também fortalecer sua soberania monetária.
“Na medida em que os países possuem seus próprios mecanismos e não utilizam terceiros, especialmente os norte-americanos, isso demonstra conquista de soberania e autonomia, proporcionando níveis de segurança nacional. O neocolonialismo, do século XX até hoje, tem sido controlado pela imposição de sistemas financeiros internacionais”, afirmou Rojas à Sputnik.
Passo necessário rumo à multipolaridade
Em um cenário cada vez mais multipolar, Rojas defende a adoção de sistemas de pagamento que priorizem moedas alternativas.
“Se eu, como país do Sul Global, decido negociar com outros países do Sul Global, por que uma moeda do Norte Global deveria intermediar? A soberania monetária e financeira consiste em se libertar desses intermediários e eliminar o risco de bloqueios econômicos”, argumentou.
Segundo ele, é fundamental que os Estados busquem independência e que suas moedas possam participar do mercado global.
O dr. Josafat Hernández concorda e aponta que investir em tecnologia de pagamentos é um passo inicial para a soberania monetária.
“O sistema Pix do Brasil incomodou tanto os Estados Unidos porque é eficiente e acessível, podendo se tornar uma alternativa regional ao SWIFT norte-americano e ameaçar a hegemonia do dólar”, concluiu Hernández.
Por Sputnik Brasil