Entre fé, luta e história: lançamento da biografia de Alba Corrêa emociona público em Jaraguá; Veja video
Obra resgata trajetória da “Beata Comunista” e reforça papel das mulheres na construção da resistência democrática em Alagoas
A noite da última sexta-feira (10) transformou o histórico bairro de Jaraguá, em Maceió, em palco de um encontro marcado pela memória, emoção e reconhecimento. Na Associação Comercial de Maceió, um espaço tradicionalmente voltado aos negócios abriu lugar para um evento carregado de significado social: o lançamento da biografia de Maria Alba Correia da Silva, conhecida como a “Beata Comunista”.
O ambiente reuniu militantes históricos, intelectuais, lideranças políticas e representantes de diferentes gerações, todos unidos pelo propósito de celebrar a vida e a trajetória de uma das figuras mais marcantes da luta social e educacional em Alagoas.
Mais do que o lançamento de um livro, o evento foi um reencontro com a própria história da resistência democrática no Estado.

Uma vida entre a fé e a militância
A trajetória de Alba Corrêa desafia rótulos simplistas. Católica de origem, com passagem por movimentos como a JEC e a JUC, ela construiu uma militância sólida no campo da esquerda, tornando-se uma das principais referências do movimento sindical e da educação pública em Alagoas.
Ao longo de mais de seis décadas, Alba esteve presente em momentos decisivos da história brasileira, desde o período pré-1964, passando pela resistência à ditadura militar, até a redemocratização do país. Sua atuação foi fundamental na organização dos trabalhadores da educação e na construção de um sindicalismo combativo no Estado.
Durante o evento, diversas falas destacaram essa dualidade que marcou sua vida: firmeza ideológica aliada à sensibilidade humana.
“Ela tinha a capacidade de ser firme nos princípios e flexível na tática”, resumiu um dos depoimentos, evidenciando o perfil de liderança que marcou gerações.
Um livro nascido da urgência
A autora da biografia destacou que a obra é fruto de um sentimento de urgência — não apenas de registrar a história de Alba, mas de dar visibilidade à trajetória de mulheres que, historicamente, foram colocadas à margem da narrativa oficial.
“Há uma urgência em contar histórias de mulheres, principalmente em um contexto de tanta desinformação. Dar voz a essas trajetórias é uma obrigação”, afirmou.
A construção do livro teve origem ainda nos anos 2000, a partir de uma iniciativa voltada ao resgate de personalidades relevantes de Alagoas. O projeto amadureceu ao longo dos anos e resultou em uma obra que ultrapassa o caráter acadêmico, aproximando a história do público em geral.
Legado na educação e na política
Alba Corrêa é apontada como uma das principais articuladoras do que hoje se consolidou como o Sindicato dos Trabalhadores da Educação de Alagoas, sendo peça-chave na transformação da entidade em uma organização de caráter classista e combativo.
Além da atuação sindical, sua contribuição acadêmica e seu compromisso com a educação pública deixaram marcas profundas na formação de professores e na defesa de uma escola pública de qualidade.
Na militância política, tornou-se referência para a esquerda alagoana, influenciando gerações de lideranças e ajudando a estruturar movimentos sociais e partidários.
Protagonismo feminino em destaque
Um dos pontos centrais do evento foi a valorização do papel das mulheres na construção da história política e social do Estado. Depoimentos emocionados reforçaram a importância de Alba como símbolo de resistência feminina em um ambiente historicamente marcado pelo machismo.
Companheiras de militância destacaram a parceria construída ao longo de mais de 50 anos, especialmente nas lutas por direitos humanos, igualdade de gênero e democracia.
“A Alba ajudou a construir não só uma história política, mas também a formação de mulheres que hoje seguem na luta”, relatou uma das participantes.
Uma noite de memória e futuro
A própria homenageada, aos 88 anos, falou de forma simples, mas carregada de significado. Relembrou sua trajetória, desde a formação religiosa até a militância política, e destacou a importância de transmitir essa experiência às novas gerações.
“Não é só a minha história. É a história de todos nós. Precisamos passar isso adiante”, afirmou.
Entre aplausos, autógrafos e reencontros, a noite deixou uma mensagem clara: a memória não é apenas passado — é ferramenta de transformação.
O lançamento da biografia de Alba Corrêa não apenas resgata uma trajetória individual, mas reafirma o papel coletivo das lutas sociais na construção de uma sociedade mais justa, democrática e consciente de sua própria história.