POLÍTICA | ALAGOAS

PSDB de JHC saiu do nanismo, mas ainda parece mais vitrine digital do que força política de verdade

Sigla tucana deixou o ostracismo com a chegada do ex-prefeito de Maceió, ganhou barulho nas redes e voltou ao noticiário, mas as filiações exibidas até agora ainda não comprovam enraizamento robusto no Estado

Por Redação Publicado em 08/04/2026 às 08:18
Do ostracismo ao barulho digital: PSDB de JHC cresce nas redes, mas partido ainda carece de densidade política no interior

O PSDB de Alagoas saiu, sim, do quase desaparecimento político. Mas uma coisa é sair do ostracismo; outra, bem diferente, é provar musculatura eleitoral de verdade. A chegada de JHC ao comando do partido tirou os tucanos do rodapé da política local, devolveu visibilidade à sigla e inflou o partido sobretudo no ambiente das redes sociais, onde o ex-prefeito de Maceió sempre teve protagonismo. Só que, fora do Instagram e da espuma do noticiário, o retrato ainda é de um partido que faz barulho acima do tamanho que efetivamente demonstrou ter até aqui. Antes da operação conduzida por JHC, por exemplo, os tucanos tinham apenas um prefeito entre os 102 municípios alagoanos: Manoel Tenório, de Quebrangulo.
A guinada começou em 1º de abril, quando JHC assumiu o comando estadual do partido e levou de saída três vereadores da base em Maceió: Chico Filho, Eduardo Canuto e Neto Andrade. O movimento serviu para produzir a imagem que o PSDB queria vender: a de que a legenda, antes nanica, voltava ao jogo. E voltou, de fato, ao menos na vitrine. O problema é que a vitrine ainda parece maior do que a loja.

Agreste


Nos dias seguintes, JHC tratou de empilhar filiações com forte valor de exposição. Trouxe a ex-prefeita de Arapiraca Célia Rocha, figura tradicional da política alagoana, e o ex-prefeito de Girau do Ponciano e ex-deputado estadual Gilvan Barros, nomes que ajudam a dar peso de sobrenome e fotografia ao novo PSDB. Célia voltou ao partido declarando apoio a JHC, enquanto Gilvan foi apresentado como reforço para o Agreste. No papel e na postagem, parece crescimento. No bastidor, porém, a leitura é menos triunfalista: são filiações de nomes conhecidos, experientes e úteis para compor narrativa, mas ainda insuficientes para provar uma adesão em cadeia de lideranças decisivas no interior.

Em Arapiraca, por exemplo, a chegada de Célia Rocha tem peso simbólico, mas não autoriza, por si só, a conclusão de que JHC tenha dominado o segundo maior colégio eleitoral do Estado. Célia é um nome de tradição, de memória política, de recall. Não é exatamente uma surpresa de ciclo novo. E ela já estava de “camisola política”. Aposentada, atuando apenas nos bastidores da campanha dos filhos de Luciano Barbosa. Em Girau do Ponciano, Gilvan Barros reforça o elenco tucano, mas seu ingresso também se encaixa mais na lógica da montagem de chapa do que na demonstração inequívoca de que o PSDB virou uma máquina de capilaridade regional. Em linguagem mais direta: o partido ganhou nomes para mostrar, mas ainda precisa exibir voto, base e tração.

Maceió


Na capital, onde JHC sempre concentrou sua força, a operação também não correu sem ruído. Depois da filiação dos três vereadores oficialmente apresentados, surgiram documentos apontando a migração de outros parlamentares do PL para o PSDB, entre eles Galba Neto, Marcelo Palmeira, Siderlane Mendonça, Jeannyne Beltrão, Jonatas Omena e Luciano Marinho. Só que a história degringolou politicamente quando parte desses nomes não confirmou a mudança. O PL, já sob o comando de Alfredo Gaspar, reagiu anunciando ofensiva judicial e falando até em recuperação de mandatos por infidelidade partidária. O que era para parecer avalanche acabou trazendo cheiro de conflito cartorial e filiação contestada.

Esse detalhe é crucial porque desmonta a euforia fabricada. Um partido que realmente cresce com solidez não precisa conviver, no ato da expansão, com vereadores dizendo que não confirmaram a troca de legenda ou com o antigo partido ameaçando ir à Justiça para reaver mandatos. O episódio não mostrou exatamente força limpa; mostrou pressa, ruído e insegurança jurídica. Em bastidor político, isso tem outro nome: crescimento com aparência de robustez, mas ainda sem plena consistência.


Fiador de pijamas


Há mais. O PSDB alagoano ressurgiu muito amparado em quadros antigos e em operadores experientes. Teotonio Vilela Filho reapareceu como fiador da entrega da sigla a JHC. Júnior Leão, ex-deputado estadual e então secretário de Governo de Maceió, assumiu papel importante na engrenagem tucana, inclusive na articulação interna e na coordenação partidária. Ou seja: o partido voltou ao noticiário, mas voltou embalado muito mais por uma reativação de peças conhecidas da velha política alagoana do que por uma explosão espontânea de novas lideranças regionais.

Enquanto isso, o outro lado do tabuleiro não ficou parado. Alfredo Gaspar assumiu o comando do PL em Alagoas em 25 de março, justamente no momento em que JHC perdia espaço na antiga legenda. Dias depois, JHC deixou o PL, assumiu o PSDB, renunciou à Prefeitura de Maceió em 4 de abril e abriu caminho para a posse de Rodrigo Cunha em 5 de abril. Arthur Lira seguiu sua própria rota. O PL foi entregue a Gaspar. E o ex-prefeito passou a ter no PSDB sua nova trincheira. O problema é que trincheira não é sinônimo de exército.

No fundo, o que se vê até agora é um PSDB turbinado em imagem, mas ainda em fase de teste quanto à densidade política real. Ganhou manchetes, ganhou postagem, ganhou enquadramento, ganhou pose de protagonista. Mas ainda não mostrou, em escala estadual, uma fileira consistente de prefeitos, lideranças regionais decisivas e blocos municipais robustos declarando apoio com clareza. A crítica que corre nos bastidores é justamente essa: o partido saiu do nanismo, mas ainda corre o risco de virar apenas um balão de Instagram — muito volume na tela, pouca prova de enraizamento no chão. Essa avaliação é uma inferência a partir do quadro público de filiações divulgadas até aqui, que segue concentrado em poucos nomes de alto simbolismo e em disputas localizadas.

Há também um traço político que pesa nessa leitura. JHC entrou no PSDB, assumiu o partido e se projetou como peça central de 2026, mas ainda sem cravar publicamente, de forma categórica, todos os contornos do seu passo seguinte. Nesse ambiente, cresce a leitura de bastidor de que o novo PSDB alagoano herdou algo do temperamento histórico atribuído aos tucanos: muita especulação, muito cálculo, muito movimento lateral e pouca definição aberta antes da hora. Não se trata aqui de fato objetivo, mas de uma percepção política recorrente no meio local, alimentada pelo ritmo cauteloso com que o grupo vem se movimentando. Os fatos concretos, porém, são estes: o partido ressuscitou na aparência, reorganizou-se rapidamente e voltou ao centro da conversa. O que ainda não ficou provado é se voltou também ao centro da força.

Em resumo, o PSDB de JHC deixou de ser um partido em coma. Mas, por enquanto, ainda parece mais uma sigla reanimada por marketing político, nomes reciclados e barulho digital do que uma estrutura estadual já consolidada para enfrentar, com robustez, a guerra de 2026. Em política, isso faz diferença. Porque curtida, foto de filiação e discurso de protagonismo ajudam a montar a cena. Mas eleição, no fim, continua sendo vencida por quem consegue provar que tem mais do que cenário: tem base, voto e lastro.