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30 anos de MP de Alagoas

Por Coaracy Fonseca Publicado em 12/04/2026 às 17:09
Coaracy Fonseca Reprodução


Confesso publicamente que, nos idos de 1996, após haver perdido por 15 décimos o concurso para magistratura, a desconfiança de que os livros pudessem me levar ao honroso cargo de promotor de Justiça era quase insuperável.

Tudo em mim era dúvida e esperança, consolo dos homens. Esperava ansioso a divulgação da banca local para dela extrair os laços familiares e avaliar as minhas chances.

Meus pais eram servidores públicos sem laços com a alta sociedade - as lágrimas ora singram o meu rosto.

Eis que um homem esguio e de óculos, ladeado por dois promotores de Justiça, anuncia a contratação da rígida Fundação Carlos Chagas, que seria a responsável pela elaboração das provas do certame.

Havia algo de estranho e inusitado. A publicidade foi ampla, pessoas de vários estados acorreram a Alagoas aumentando em demasia a concorrência, gente do Brasil, a disputa não seria local, como outrora.

O receio deu lugar ao medo e a ansiedade. Lançado o extenso Edital, passei a despertar às duas horas da madrugada e a devorar livros sem conta, dez horas por dia e parecia pouco.

Juntei-me aos amigos locais e contratamos professores para algumas disciplinas, ausentes noutros concursos.

Rezávamos o terço, eu e meu pai, todos os dias, tínhamos muita fé, seria aquela a porta do meu futuro e da família que iria surgir, os meus filhos.

Vieram as provas, a dificuldade era imensa. Passei a duvidar da minha capacidade, pensei em desistir durante o percurso, não fosse o apoio da família.

Hoje, passados 30 anos, comemorados ontem, com grandes amigos e amigas, que também passaram pelas mesmas aflições, lembro-me que passei no terceiro lugar, ao lado de candidatos de toda parte do nosso imenso país.

Os preceitos da bela Constituição de 1988 não eram apenas verbo, a honestidade de um Procurador-Geral de Justiça e seu grupo - ninguém é alguém sem ninguém - fê-los substância, mudou a vida de muitos brasileiros.

O Ministério Público é o guardião mor da Carta da República, um texto vivo. Dilmar Lopes Camerino, Lean Antônio Ferreira de Araújo e os notáveis membros da banca examinadora entraram para a História.

O texto já se faz longo. Ontem jovem, hoje velho. Mas o trabalho implacável do tempo, este senhor tão bonito, “como a cara dos meus filhos”, não tirou de todos nós o compromisso maior de fazermos um Brasil mais humano e justo.

Dr. Dilmar Lopes Camerino, que o vento sopre o seu nome pela eternidade. “A melhor pregação é o exemplo”