O custo da governança invisível e o impacto real das decisões que antecedem a obra
Sempre que um projeto público fracassa, a explicação costuma recair sobre a execução. A obra atrasou, o serviço não chegou, o orçamento estourou. Pouco se discute o que antecede esses resultados. As escolhas que definem prioridades, os critérios de alocação de recursos e a inexistência de estruturas capazes de sustentar decisões consistentes ao longo do tempo. É nesse campo menos visível que a governança falha com maior frequência. E é ali que o PMO (Project Management Office, ou Escritório de Gerenciamento de Projetos), área responsável por padronizar processos, monitorar indicadores e apoiar a priorização estratégica dos projetos, deveria assumir um papel central.
Os dados ajudam a dimensionar a gravidade do cenário. Em 2024, o Tribunal de Contas da União identificou 11.941 obras paralisadas no país, o que representa 52% das contratações vigentes. Na prática, a cada dois empreendimentos contratados com recursos federais, um encontra-se paralisado. Não se trata apenas de atraso, mas de capital imobilizado, perda de capacidade de entrega e decisões que não resistiram à complexidade da realidade.
Atribuir esses fracassos exclusivamente a falhas de execução é uma leitura confortável, porém incompleta. Projetos de interesse público operam em ambientes marcados por múltiplos atores, restrições orçamentárias, pressão política e metas de longo prazo. Sem governança estruturada, a tomada de decisão se fragiliza. Prioridades se alteram sem critérios claros, riscos deixam de ser tratados de forma sistêmica e investimentos se acumulam sem coerência estratégica.
Nesse contexto, o PMO ainda é visto como uma instância administrativa, associada a controle, prazos e relatórios. Essa interpretação limita seu potencial e contribui para que muitos projetos nasçam sem sustentação. Um PMO maduro não executa obras nem define políticas públicas, mas cria condições para decisões mais qualificadas. Ele conecta planejamento, gestão de portfólio, indicadores de desempenho e transparência, atuando antes que o recurso seja comprometido.
A fragilidade dessa lógica torna-se ainda mais evidente em setores que exigem coordenação de longo prazo, como o saneamento básico. Para que o Brasil atinja a meta de universalização até 2033, será necessário investir cerca de 900 bilhões de reais, segundo estimativas da Abcon. O desafio, porém, vai além do volume de recursos. Sem estruturas capazes de ordenar escolhas e garantir previsibilidade, o risco é perpetuar ciclos de obras inacabadas e entregas frustradas.
Parte do mercado acerta ao ampliar a cobrança por eficiência, transparência e resultados. Ainda assim, erra ao tratar governança como custo e não como fundamento da geração de valor público. Ao reduzir o PMO a uma função operacional, perde-se a oportunidade de diminuir assimetrias de informação, fortalecer a rastreabilidade das decisões e criar aprendizado institucional. O resultado é um sistema que reage aos problemas, mas raramente os antecipa.
Para a sociedade, o PMO permanece invisível. Seus efeitos, no entanto, são sentidos de forma concreta. Onde há governança, observa-se menos desperdício, maior previsibilidade e maior chance de que políticas públicas se sustentem no tempo. Onde ela falha, os impactos aparecem em obras paralisadas, investimentos desconectados e metas cada vez mais distantes da realidade.
Repensar esse modelo exige uma mudança de postura. Não se trata de criar mais camadas de controle, mas de reposicionar o PMO como parte da arquitetura de governança. Integrá-lo aos níveis estratégicos, fortalecer a gestão de portfólio e reconhecer seu papel na qualificação das decisões públicas são passos fundamentais. Antes da obra, do serviço e da política pública, existe a escolha. E escolhas melhores dependem de estruturas que sustentem o valor público, mesmo quando ninguém está olhando.
Leonardo Barrera é Engenheiro Civil, certificado PMP e especialista em Saneamento Ambiental e Gestão de Projetos, com foco na estruturação de PMOs, gestão de portfólio e apoio à execução de projetos estratégicos em ambientes complexos de infraestrutura, na Vizca Engenharia.