LITERATURA

Ana Paula Tavares reflete sobre a relação entre Brasil e Angola na Flip

A escritora angolana compartilhou suas experiências e a importância de autores brasileiros em sua obra.

Por Estadao Conteudo Publicado em 26/07/2026 às 16:50
Ana Paula Tavares Reprodução / Instagram

Ana Paula Tavares caminhou com leveza pelo palco do Auditório da Matriz na tarde de sábado, 25. Uma poetisa e escritora angolana de 73 anos, vencedora do Prêmio Camões 2025, o mais importante da língua portuguesa, foi uma das poucas convidadas desta edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que sustentou uma mesa sozinha, sob companhia apenas do mediador Tarso de Melo.

Sua leveza logo foi elogiada por ele: "É raro alguém que carrega tanta história quanto você carregar tanta leveza e generosidade". E a escritora retribuiu a gentileza, elogiando o evento: "É muito bonito ver tantos jovens circulando por aqui interessados ​​em ler livros", disse. "Estão me tratando bem, mas principalmente o que quero dizer e compartilhar com vocês é que me sinto muito bem aqui."

Nascida em 1952 no sul de Angola, Ana Paula Tavares é um dos nomes mais importantes da literatura lusófona. Seu trabalho aborda principalmente temas como o corpo feminino relacionado à ancestralidade e à história de seu país, ao qual se manteve fiel mesmo após sua residência em Lisboa no início dos anos 1990, duas décadas depois de seus pais deixarem para Angola.

"Minha família era de 'assimilados' e muito colada à forma portuguesa de estar no mundo. Meu pai quando se olhou no espelho não se via como africano", disse ela. "Eu passei a vida contrariando tudo isso. Estudei muito mais do que se esperava, lia muito mais do que se esperava e tinha comportamentos que eram estranhos. Claro que a poesia foi uma porta aberta para tudo isso."

"Esperava que algum desastre grave me acontecesse. Alguns aconteceram, outros não. Mas consegui sobreviver a esse desafio. Assumi esse papel de menina má comportada, porque era mais fácil para minha família entender diante de si uma menina má comportada do que um ser estranho que lia e estudava", continua. "Tanto foi que entre 1974 e 1975, toda a minha família foi para Portugal e eu fiquei em Angola sozinho. Como dizia meu pai: ela não é revolucionária nem nada, é teimosa", completou, sob risos da plateia.

A família da escritora deixou o país em meio à guerra pelo fim da Angola colonizada. Ana Paula conta que, no dia da independência, passou horas escondida debaixo de uma mesa enquanto o exército sul-africano tentava impedir o controle do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). “Apesar disso, foi o dia mais feliz das nossas vidas. Só tive uma emoção tão grande como aquela no dia do nascimento da minha filha”, afirmou.

Um poeta falou sobre a forte relação entre a literatura brasileira e a literatura angolana, algo que teve início na geração dos seus pais e continuou nos anos em que ela começou a desenvolver seu trabalho poético. Autores como Jorge Amado, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa e Adélia Prado foram incluídos.

"O Brasil para nós angolanos significou uma consciência do mundo que nós até certo ponto não temos. Com a leitura de Jorge Amado - por exemplo, mas poderia começar antes com Solano Trindade - autores e poetas de antes da minha geração especificada que personagens das margens, as pessoas desse sistema colonial que vivíamos, podiam ser protagonistas de livros", explicou.

A autora contornou que sentiu muita dificuldade de se conectar com a poesia portuguesa nos primeiros anos em que se mudou para Portugal, porque os poetas que lhe foram apresentados quando jovem tinham o objetivo de importar a visão imperial de ver o mundo. "Foi um grande desafio porque ninguém fica indiferente, ou pelo menos eu não consigo ficar, frente a uma proposta poética. Mas a minha cabeça estava em Angola. Saí de lá, mas ela não saiu de mim. Não podia ceder a novas provocações deixando de continuar o que começou em Angola", explicou.

Para Ana Paula, a sua produção literária foi por vezes uma tentativa de investigar as histórias de Angola, que com frequência recitavam sobre as mulheres. Ela continua essa missão, afirmando que a maior parte da população de Angola hoje não viu a guerra pela independência, mas é preciso continuar lutando "pela utopia", como disse.

Questionada ainda sobre a questão da decolonialidade, ela afirmou: "A palavra decolonial muitas vezes chega como uma receita para resolver todos os problemas. Acho que tem que se pensar, a teoria é muito bonita, mas vou citar Cora Coralina quando ela diz: 'na prática a teoria é outra'. Não podemos aderir à teoria como se ela fosse um remédio. Ela tem que ser como um caminho que nos ajuda a pensar."