Série 'Mafalda' vai manter tom político: 'De outra forma, não seria ela', diz produtor
O produtor argentino Gastón Gorali não esconde o orgulho que sente ao falar com o Estadão sobre a nova série Mafalda, coprodução de seu estúdio, Mundoloco CGI, com a Netflix. A atração vai levar a personagem questionadora e pacifista pela primeira vez ao streaming, em uma plataforma global, e Gorali faz questão de reforçar que um dos pontos mais importantes para a produção é manter a fidelidade ao material original de Quino (1932-2020).
No Brasil para participar do Rio2C, convenção de criatividade e mercado que acontece no Rio de Janeiro, o produtor estará em um painel ao lado de Daniel Rezende, diretor de Turma da Mônica: Laços (2019), Lições (2021) e A Série (2022), para debater o universo de adaptações de quadrinhos icônicos da cultura latino-americana para o audiovisual. Para ele, o caminho para transformar Mafalda em uma série de streaming é árduo, mas prazeroso.
"Nós não trabalhamos para terceiros, não fazemos serviços de animação ou propaganda, que é o mais comum que estúdios de animação da América Latina fazem para sobreviver", orgulha-se. "Tomamos um caminho diferente e mais difícil, que é sempre ter projetos em incubação, desenvolvimento e produção. Para fazer isso, precisamos realmente investir na incubação e no desenvolvimento. Não dá para se ter uma floresta sem as sementes."
Dirigida e escrita por Juan José Campanella, cocriador do estúdio e diretor do vencedor do Oscar em 2010 O Segredo dos Seus Olhos, Mafalda tem Gastón como corroteirista e produtor executivo, e promete existir na confluência entre o clássico e a inovação, como uma maneira de mesclar o trabalho histórico de Quino com o que as novas tecnologias permitem no formato animado. Mesmo assim, a ideia surgiu do modo mais analógico possível.
"Um dia eu estava andando e vi este belo livro que tenho aqui comigo", diz, por videoconferência, exibindo uma cópia com a capa esbranquiçada de Toda Mafalda, coletânea que reúne todas as tirinhas da personagem. "Esta capa costumava ser de um amarelo vivo, e está assim porque ela está exibida na nossa recepção há anos. O sol da janela foi queimando o amarelo. E, por todo esse tempo, eu convivo com esse material."
Segundo Gorali, o que surgiu foi uma espécie de epifania. "Um dia, eu estava caminhando pelo estúdio e comecei a olhar para este livro. Fiquei lá parado no meio da recepção encarando o livro que eu já tinha visto milhares de vezes, e tive essa epifania. Por que não estamos trabalhando nesta joia que une duas gerações? Foi assim que começou."
Para ele, a escolha de Campanella para encabeçar a série também foi algo natural. Ele se recorda de quando o estúdio recebeu a visita de Quino durante a produção do filme Um Time Show de Bola (2013), também de Campanella.
"Ele era um grande fã do Campanella, e eu acho que os dois compartilham da mesma mentalidade. Durante a visita, havia mais de 200 artistas de 15 países diferentes trabalhando. Quando ele chegou, todo mundo se levantou para aplaudir. Ele demandava esse tipo de respeito e, mesmo assim, era uma pessoa extremamente humilde", recorda. "Agora, temos um time de profissionais de vários países trabalhando na série, e todo mundo ama a Mafalda porque ela significava alguma coisa para todos nós quando éramos crianças."
O que esperar da série
Publicada pela primeira vez em 1964, e criada originalmente para ser "garota-propaganda" da loja Mansfield de eletrodomésticos (o que não aconteceu), Mafalda foi não apenas parte da formação de toda uma geração de leitores, como também ajudou a espalhar e fomentar ideias e ímpetos questionadores.
Hoje, meio século depois de sua criação, a garotinha segue atual, bem como os questionamentos tão eficazes que passou a fazer sobre as turbulências políticas, econômicas e existenciais do mundo.
Por isso, questionado sobre a manutenção do teor político das tirinhas, Gastón não pestaneja ao confirmar.
"De outra forma, não seria Mafalda", reforça. "Imagine o quão visionário era Quino, para o bem e para o mal, já que a maior parte das questões que Mafalda levantava ainda são questões atuais. São assuntos da atualidade, e esse é o tipo de sensibilidade que ele tinha. Ou talvez seja uma questão nossa enquanto civilização, como não avançamos nada em muitas frentes nos últimos 50 anos. Mafalda levanta mais perguntas do que respostas, e esse é o espírito da personagem, de fazer as perguntas corretas para deixar todo mundo pensativo."
Embora mantenha certo segredo sobre a história da série, Gastón adianta que grande parte do processo criativo no momento foca em encontrar a melhor forma de traduzir os pontos fortes do material literário para um formato diferente.
"Uma coisa que o Campanella sempre diz é que, quando você está lendo a tirinha, faz isso no seu próprio tempo, vai de um quadro a outro em seu próprio ritmo. Se você quiser fazer isso no audiovisual, não vai traduzir bem. Então, o que tentamos fazer é capturar a essência e trazê-la para um novo formato. Passamos muito tempo na Mundoloco com o time de roteiristas, de storyboard e os animadores, falando sobre isso. É nesse processo que passamos a maior parte do tempo, porque não queremos ser literais a ponto de não ter um novo material nas histórias que estamos criando, mas, ao mesmo tempo, queremos ser fiéis ao material original", confessa.
Ainda assim, ele acredita que a grande força continua sendo a atemporalidade do material original, que já foi editado em mais de 30 países e exportado para a Europa ainda na década de 1960.
"A Mafalda já viralizava há 50 anos, antes de a internet existir. Como isso é possível? Como pode um rapaz de Mendoza, fazendo uma pequena tirinha criada originalmente para propaganda, se transformar em um ícone global em países como Espanha, França, Itália, México, Colômbia e Brasil? É puro talento e boca a boca. Quando você tem esse tipo de poder, esse tipo de mensagem tão poderosa, você tem algo que é capaz de conectar. A Netflix, com toda a tecnologia e a presença em 190 países, é um facilitador. Mas, sem uma história humana por trás, não há nada."
O produtor prossegue refletindo sobre o que faz Mafalda ressoar de maneiras tão fortes com públicos tão distintos, e torce para conseguir refletir estes mesmos traços na nova série.
"Você vê pessoas das mais diferentes se conectarem com Mafalda. De grandes filósofos a donas de casa, todos se identificam com o mesmo material. O que eu acho que existe em comum é honestidade e humanidade. Honestidade porque você precisa fazer as perguntas difíceis, e Mafalda consegue fazer isso. E então também é preciso ter uma certa ternura, para ser não só irônico, mas também demonstrar esperança em um mundo melhor. E como essas coisas não nos conectam? Não somos todos a mesma espécie, vivendo no mesmo planeta? Um gênio como o Quino, no meu ponto de vista, foi capaz de unir esses pontos. O resto é com os leitores."
Mafalda tem lançamento previsto apenas para 2027 na Netflix mas, a depender da Mundoloco, ainda há outros caminhos a percorrer. Mesmo assim, Gorali só torce para que a série encontre seu público ideal.
Se pudermos colocar em tela o amor e a paixão que dedicamos a este projeto, o talento que há por trás e as centenas de horas que centenas de profissionais dedicam à série, se toda essa sinfonia de talentos estiver na tela e o público puder compreender ou apreciar todo o amor que sentimos, se divertir e talvez pensar sobre algumas coisas, no fim do dia, isso é o nosso maior tesouro", finaliza.