Em 'Eclipse', Djin Sganzerla usa suspense para refletir sobre trauma de relações abusivas
Segundo longa da diretora aborda experiências femininas e violência estrutural por meio do thriller psicológico.
Em seu segundo longa-metragem como diretora, a atriz, produtora e roteirista Djin Sganzerla lança um olhar sensível sobre temas atuais. Em Eclipse, a cineasta investiga a experiência feminina e busca expor a relação entre violência e comportamentos tóxicos.
Filha do cineasta Rogério Sganzerla e da atriz Helena Ignez, Djin retorna aos cinemas com Eclipse, em cartaz desde a última quinta-feira, 7. O filme marca seu segundo trabalho na direção, após Mulher Oceano (2020), e conta a história da astrônoma Cleo, interpretada pela própria diretora. Grávida, Cleo é surpreendida pela chegada de Nalu (Lian Gaia), sua meia-irmã de origem indígena. A convivência entre as duas desencadeia memórias perturbadoras em Cleo.
Para Djin, a proposta do longa vai além do suspense. As irmãs mergulham em camadas profundas da deep web durante uma investigação, mas, segundo a diretora, "eu queria que Eclipse fosse mais do que um suspense psicológico".
"O filme nasce desse desejo de olhar para violências profundas e estruturais por meio da linguagem do thriller social. Acredito que o gênero tem uma potência enorme de envolver emocionalmente o público e, ao mesmo tempo, provocar reflexão. O suspense, neste filme, é uma forma de fazer com que o espectador sinta no corpo uma tensão que muitas mulheres vivem silenciosamente", afirma Djin.
Relação com a realidade
De acordo com a diretora, a inspiração para a história veio após ela conhecer um caso real: uma mulher que descobriu que o próprio marido a difamava e ameaçava de morte em um fórum na internet. A partir desse episódio, Djin criou o encontro entre a astrônoma e sua irmã como forma de retratar o choque de realidades.
A trajetória da ficção também encontra ecos em outros casos recentes que ganharam destaque na mídia. "Quando Eclipse já estava filmado e em pós-produção, veio à tona o caso de Gisèle Pelicot, e eu fiquei impressionada com algumas semelhanças em relação ao personagem masculino do filme: essa capacidade perturbadora de alguém aparentemente amoroso também acessar zonas extremamente sombrias e doentias", compara. "Existe uma violência invisível que se manifesta nos pequenos gestos."
Exibido em 2025 na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Eclipse chega ao circuito comercial após passagens por festivais nos Estados Unidos e na Turquia. Djin comemora a recepção do público. O elenco conta ainda com Sérgio Guinzé, Gilda Nomacce, Selma Egrei e Helena Ignez.
"Muitas pessoas saem mobilizadas porque entendem que Eclipse não fala apenas de um caso isolado, mas de uma realidade urgente e coletiva. As pessoas estão saindo muito tocadas, e é potente perceber essa comunicação com a obra. Acho importante que o cinema também possa ser um espaço de inquietação, de debate e de escuta sobre temas que ainda precisamos enfrentar como sociedade", conclui a diretora.