Livro 'Assistida' revela o lado oculto da Fertilização in Vitro
Escritora Sabrina Alvernaz lança diário íntimo sobre infertilidade, rompendo o silêncio sobre endometriose e a pressão social por filhos.
Na contramão das campanhas publicitárias de Dia das Mães que exaltam a maternidade como destino único da mulher, a escritora e doutora em literatura Sabrina Alvernaz lança "Assistida". A obra, gestada ao longo de cinco anos de silêncio e dois de escrita, é um mergulho visceral no universo da Reprodução Assistida, despido de filtros ou promessas de finais felizes.
O livro nasce de uma experiência pessoal transformada em crítica social: a jornada de uma mulher intelectualmente preparada para os discursos de gênero, mas que se vê vulnerável diante de um "útero seco". Entre protocolos hormonais, cirurgias de videolaparoscopia e as dolorosas injeções de enoxaparina sódica, Sabrina constrói um "eu-coletivo" que dá voz às milhares de mulheres invisibilizadas pela infertilidade.
A Dor do Diagnóstico e o Silenciamento Estrutural
"Assistida" não é um manual técnico, mas um diário de resistência. A obra traz à tona doenças frequentemente ignoradas pelo sistema ginecológico tradicional: a endometriose e a trombofilia. A autora relata como décadas de consultas médicas falharam em investigar a causa de suas dores, uma realidade compartilhada por milhões de brasileiras que sofrem com diagnósticos tardios que comprometem a fertilidade.
"Chorei ao perceber como as dores de mulheres podem ser tão sistematicamente ignoradas", escreve Sabrina. O livro também confronta as famosas "frases de tios do pavê" e conselhos como "é só relaxar que acontece", que transferem para a mulher a culpa por um processo biológico complexo e, muitas vezes, falho.
Ciência, Poesia e Realidade
Com prefácio da poeta Juliana C. Alvernaz e consultoria técnica da Dra. Débora Faria, especialista em Reprodução Humana, o livro equilibra o rigor científico das estatísticas — apenas 30% de chance de sucesso em cada tentativa — com a sensibilidade de quem viveu os "fogachos" da menopausa induzida e o isolamento social de quem decide não falar sobre o tratamento.
Sabrina Alvernaz, que já tem trajetória consolidada como pesquisadora e roteirista, utiliza sua voz para oferecer um alento às mulheres que se sentem "em falta". "Assistida" é um convite para que a sociedade aprenda a acolher a espera e a incerteza, reconhecendo que a identidade feminina existe e é potente, independentemente do sucesso de um teste de gravidez.