LITERATURA

Fantasia urbana nacional une seres sobrenaturais, espiritualidade e conflitos sociais

Em "Protetores: o livro das magias ambíguas", Bruno Panda Lopes apresenta uma trama em que criaturas místicas e forças invisíveis disputam um artefato capaz de alterar o equilíbrio entre os mundos

Por Assessoria Publicado em 24/03/2026 às 08:50
Rogério Bezerra @rogeriobezerraf

Existe um Rio de Janeiro muito distinto do imaginário turístico da “cidade maravilhosa” com suas belas praias e cartões-postais. Nas madrugadas inquietas da cidade, violência e fé caminham pelas mesmas ruas, atravessam becos, comunidades e histórias que raramente chegam às manchetes. É nesse cenário que o escritor carioca Bruno Panda Lopes ambienta Protetores: o Livro das Magias Ambíguas, fantasia urbana em que forças sobrenaturais circulam silenciosamente entre os habitantes da metrópole. 

Dizem que o Rio nunca dorme. 
Pode não dormir. Mas sonha. 
Sonha com o que perdeu, com o que enterrou sob o asfalto quente,
com os nomes que já não se pronunciam.
 
De dia, o sol queima e disfarça os gritos. De noite, os becos têm fé 
e contam o que o homem finge não ouvir. Escondendo maldições. 
A cidade sonha, mas nunca dormindo
(Protetores, p. 9) 

Com uma atmosfera sombria e mística, o enredo apresenta ao leitor um grupo improvável de aliados conhecidos como Protetores: humanos comuns com habilidades extraordinárias encarregados de enfrentar forças sobrenaturais que ameaçam o equilíbrio entre o mundo físico e espiritual. No centro da narrativa está o desaparecimento de um artefato poderoso, o Livro das Magias Ambíguas, objeto capaz de revelar feitiços, profecias e desejos ocultos, mas também de consumir a energia vital de quem ousa estudá-lo. 

A busca pelo exemplar coloca lado a lado personagens muito diferentes entre si, como Roberto Rosa, um homem de presença marcante, conhecido tanto pela força física quanto pelo humor ácido com que enfrenta situações em que a maioria das pessoas sequer acredita que existam; Tiago Yamamoto Caccini, exorcista treinado no Vaticano e especialista em combate espiritual; e Clarisse de Santa Clara, uma jovem médium que se torna peça-chave na disputa pela obra. No decorrer da história, outros personagens entram em cena e ampliam a rede de alianças e conflitos que move a trama. 

Em Protetores: o Livro das Magias Ambíguas, demônios, espíritos e criaturas conhecidas como metamorfos (seres capazes de assumir formas híbridas entre humanos e animais, a exemplo de lobisomens) fazem parte de um mundo obscuro que convive silenciosamente com a vida cotidiana. Ao mesmo tempo, elementos da cultura brasileira atravessam a narrativa, com referências a rituais, entidades e diferentes formas de fé que dialogam com o combate ao sobrenatural. 

Mais do que construir uma história fantástica, Bruno Panda Lopes apresenta uma narrativa que dialoga com aspectos concretos da realidade urbana. Vielas, comunidades, hospitais e túneis se transformam em palco de confrontos invisíveis, ao refletir  tensões e desigualdades sociais que fazem parte da rotina dos grandes centros. Essa dimensão realista é reforçada pela trajetória do autor: policial militar, graduado em Educação Física e especialista em Direitos Humanos, ele convive diariamente com situações de violência e vulnerabilidade, experiências que influenciam diretamente a construção do enredo. 

Neste universo em que as fronteiras entre bem e mal nem sempre são delimitadas, humanos, entidades espirituais e criaturas sobrenaturais coexistem em um cenário onde escolhas, crenças e circunstâncias podem definir o destino de cada personagem. O autor propõe uma jornada mística marcada por conflitos morais e dilemas humanos  para lembrar o leitor de que, muitas vezes, aquilo que parece uma maldição pode ser apenas outra forma de enfrentar a escuridão. 

Divulgação | Editora Multifoco