ELEIÇÕES

JHC ataca 40 anos de “atraso”, mas desfila ao lado de dois ex-governadores que comandaram Alagoas por 16 anos

Discurso do candidato esbarra na própria fotografia de sua campanha: Téo Vilela e Ronaldo Lessa governaram Alagoas por oito anos cada; indicadores oficiais mostram que Estado encerrou gestão tucana de Vilela ainda entre os piores do país em áreas sociais

Por Redação Publicado em 29/09/2026 às 19:09
JHC ataca 40 anos de “atraso”, mas desfila ao lado de dois ex-governadores que comandaram Alagoas por 16 anos

O discurso de renovação adotado por JHC (PSDB) na reta final da campanha ao Governo de Alagoas encontrou uma contradição difícil de esconder durante caminhada realizada em Maceió no últimovdomingo.

Ao falar para apoiadores, JHC afirmou que sua candidatura pretende mudar “40 anos de atraso” no Estado.

O problema estava ao seu lado.

Na caminhada apareciam dois ex-governadores de Alagoas: Ronaldo Lessa e Teotonio Vilela Filho. Somados, os dois comandaram o Estado durante 16 dos 47 anos que o próprio candidato coloca sob crítica.

Lessa governou Alagoas por dois mandatos, entre 1999 e 2006. Téo Vilela assumiu em seguida e também permaneceu oito anos no Palácio República dos Palmares, entre 2007 e 2014.

Ou seja: mais de um terço do período que JHC apresenta ao eleitor como símbolo do “atraso” teve como governadores dois políticos que hoje estão no seu próprio campo político.


Téo deixou governo com Alagoas ainda mergulhado em graves indicadores sociais


No caso de Teotonio Vilela, os números do fim de seu governo permitem dimensionar a contradição.

Dados do IBGE referentes a 2014, último ano de sua administração, mostram que 21,5% dos alagoanos viviam com renda domiciliar per capita de até um quarto do salário mínimo.

O rendimento domiciliar per capita de Alagoas naqueleseu próprio campo político. ano era de apenas R$ 604, enquanto a média brasileira alcançava R$ 1.052.

Outro indicador especialmente duro estava na expectativa de vida. Em 2014, segundo o IBGE, Alagoas apresentava a menor expectativa de vida masculina entre todos os estados brasileiros: 66,2 anos.

A mortalidade infantil também permanecia elevada. O IBGE colocou Alagoas entre os estados que registravam taxas superiores a 20 mortes de crianças menores de um ano para cada mil nascidos vivos.

São dados oficiais do último ano dos oito anos de administração de Téo Vilela. Não significam que todos esses problemas tenham sido produzidos por seu governo — muitos são históricos e estruturais —, mas mostram objetivamente a situação social em que Alagoas se encontrava quando o tucano deixou o Palácio República dos Palmares.

E é justamente Téo quem aparece agora ao lado de JHC quando o candidato promete romper com décadas de “atraso”.


Ronaldo Lessa: de protagonista a uma sucessão de negociações por espaço


Ronaldo Lessa expõe outra contradição do discurso de renovação.

Ex-prefeito de Maceió e governador por dois mandatos, Lessa já foi um dos principais protagonistas da política alagoana. Nos últimos anos, porém, sua trajetória passou a ser marcada por sucessivas negociações para permanecer nos espaços de poder.

Em 2026, rompeu com o grupo político do governador Paulo Dantas e de Renan Filho e aproximou-se de JHC.

Inicialmente, Lessa foi apresentado como nome para ocupar a vice na chapa tucana. Não ficou.

A vaga terminou entregue a Célia Rocha.

Lessa então apareceu como segundo suplente de Marina Cândia na disputa pelo Senado. Depois renunciou à posição e acabou fora da chapa.

Mas a acomodação política ganhou um novo capítulo: JHC anunciou publicamente que, caso seja eleito governador, pretende entregar a Ronaldo Lessa a presidência do Fundo Estadual de Combate e Erradicação da Pobreza (Fecoep).

A situação produz uma ironia política difícil de ignorar.

O candidato que se apresenta como ruptura com décadas de política alagoana não apenas recebe o apoio de um homem que governou o Estado por oito anos como já lhe reserva espaço numa eventual administração.


Afinal, quem governou nesses 40 anos?


É justamente aí que o discurso de JHC encontra sua própria fotografia.

Se os 40 anos representam, como sustenta o candidato, um gperíodo do qual Alagoas precisa se libertar, é inevitável perguntar onde ele coloca os oito anos de Ronaldo Lessa e os oito anos de Teotonio Vilela Filho nessa conta.

Eles fazem parte dos 40 anos ou não?

Se fazem, JHC está caminhando de braços dados com dois representantes do período que condena.

Se não fazem, o candidato precisa explicar ao eleitor qual é exatamente o recorte histórico de seu discurso.

A contradição torna-se ainda mais evidente porque Téo Vilela pertence ao próprio PSDB, partido pelo qual JHC disputa atualmente o Governo de Alagoas.

Não se trata, portanto, apenas de uma fotografia ocasional.

São dois ex-governadores, 16 anos de poder e uma presença ostensiva no campo político que sustenta a candidatura de quem promete combater “47 anos de atraso”.

Na política, fotografias também contam histórias.

E a imagem de JHC caminhando ao lado de Téo Vilela e Ronaldo Lessa talvez diga mais sobre a contradição de seu discurso do que qualquer adversário precisaria dizer.