SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

Dino alerta para riscos de falas distorcidas após polêmica do detergente Ypê

Ministro do STF ressalta necessidade de cautela com declarações públicas, citando repercussão de vídeos sobre detergente e defendendo transparência em emendas parlamentares.

Publicado em 13/05/2026 às 16:31
Flávio Dino © Foto / Gustavo Moreno / STF

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), destacou nesta quarta-feira, 13, a importância de cautela ao fazer declarações públicas, especialmente diante do risco de falas serem recortadas e distorcidas em vídeos.

Durante audiência no STF sobre transparência e rastreabilidade de emendas parlamentares, Dino comentou a recente polêmica envolvendo o detergente Ypê, que se tornou alvo de disputa ideológica após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspender produtos da marca por falhas de fabricação.

O caso ganhou repercussão nas redes sociais, onde apoiadores da direita divulgaram vídeos incentivando o uso e até ingerindo o produto. “Tenho que tomar muito cuidado (com as falas) porque recorta, tudo recorta. Quando até detergente vira confusão, a gente tem que ter muito cuidado com tudo. A gente tem que ter cuidado com os cortes”, afirmou Dino.

O ministro ironizou políticos de direita, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) e o vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (PL), que gravaram vídeos em defesa do detergente Ypê. Segundo apoiadores de Jair Bolsonaro (PL), a Anvisa estaria tentando “boicotar” a marca, que em 2022 fez doações para a campanha do ex-presidente.

A declaração de Dino ocorreu logo após uma observação irônica sobre a relação entre o STF e a Procuradoria-Geral da República (PGR), quando afirmou que, diante de dúvidas sobre o destino de um tema, “mandam para a PGR”. Em seguida, reforçou a necessidade de cautela para evitar que trechos isolados de falas circulem fora de contexto.

A audiência no Supremo foi convocada por Dino após estudos apontarem falhas persistentes na “relevância e transparência” das emendas parlamentares. O encontro, presidido pelo ministro, tem como objetivo debater os dados das pesquisas e discutir possíveis soluções para o tema.

Dino mencionou um levantamento do Movimento Orçamento Bem Gasto, que analisou o impacto das emendas na redução de desigualdades e nos requisitos de transparência e rastreabilidade. O estudo concluiu que “nenhuma emenda alcançou pontuação suficiente para ser classificada com nível alto de relevância e transparência”.

O ministro é relator de uma ação no STF sobre as chamadas emendas Pix, modalidade de transferência de recursos federais diretamente a estados e municípios, sem necessidade de convênio prévio ou apresentação de projeto detalhado. Esse tipo de repasse se caracteriza pela rapidez e falta de transparência.

Para a audiência, Dino intimou representantes da Advocacia-Geral da União (AGU), Advocacia do Senado Federal, Advocacia da Câmara dos Deputados, PSOL (autor da ação no STF), Procuradoria-Geral da República (PGR) e Controladoria-Geral da União (CGU).

Também participaram como expositores os autores do estudo: Marcelo Issa e Marina Iemini Atoji, do Movimento Orçamento Bem Gasto, além de Ana Cleusa Serra Mesquita, Fabíola Sulpino Vieira, Mário Magalhães e Sergio Luiz Doscher da Fonseca, do Ipea.