A fé em disputa: católicos e evangélicos na corrida política de 2026
A origem do debate religioso no campo social
Entre as décadas de 1960 e 1970, iniciou-se no Brasil um movimento dentro da Igreja Católica que ficaria conhecido como Teologia da Libertação. Desenvolvido principalmente por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esse movimento levou uma visão social da fé ao interior da Igreja, aproximando o discurso religioso das realidades sociais.
Mesmo diante da opressão da ditadura militar, nomes como Leonardo Boff e Frei Betto não se afastaram de seus ideais cristãos e sociais, contribuindo para uma nova interpretação do papel da Igreja Católica na sociedade brasileira.
O crescimento evangélico e a mudança do cenário religioso
Paralelamente, o crescimento evangélico no Brasil começou a ganhar força ainda nesse período. Esse avanço se manteve constante ao longo das décadas seguintes, atingindo, segundo o Censo 2022 do IBGE (divulgado em 2025), cerca de 47,4 milhões de pessoas — o equivalente a 26,9% da população brasileira, o maior percentual já registrado.
Embora o ritmo de crescimento tenha apresentado sua primeira desaceleração em mais de 60 anos, as projeções indicam continuidade da expansão, podendo alcançar entre 31% e 36% da população até 2026, o que representaria entre 67 e 74 milhões de brasileiros.
Esse crescimento não representa apenas uma mudança religiosa, mas uma transformação estrutural na forma como fé e sociedade se relacionam no Brasil.
Da separação à participação política
Diferentemente do movimento católico das décadas anteriores, o crescimento evangélico não foi inicialmente acompanhado por forte atuação política. Durante muito tempo, prevaleceu entre as igrejas evangélicas a defesa da separação entre Igreja e Estado.
Com a redemocratização, esse cenário começou a mudar. Figuras como o pastor Caio Fábio, além de lideranças como Edir Macedo e Silas Malafaia, passaram a ocupar espaços de influência no debate público, aproximando religião e política.
A virada: quando a fé entra no campo político
A partir dos governos do Partido dos Trabalhadores, especialmente nas gestões de Luiz Inácio Lula da Silva, parte significativa do meio evangélico passou a se posicionar politicamente de forma mais ativa.
Esse movimento ocorreu, sobretudo, em reação a pautas relacionadas a costumes e valores morais, interpretadas por esse grupo como contrárias à estrutura familiar tradicional.
Como consequência, os púlpitos passaram, em muitos casos, a assumir também um papel político, tornando-se espaços de orientação e mobilização eleitoral.
A fé em disputa: conservadores e progressistas
Com o crescimento expressivo da população evangélica, esse segmento passou a ser alvo direto de disputas políticas, tanto por grupos conservadores quanto progressistas.
A maioria do eleitorado evangélico brasileiro tende a se identificar com pautas conservadoras, especialmente em temas morais. No entanto, cresce — ainda que de forma minoritária — um grupo de evangélicos progressistas, que busca conciliar fé com pautas sociais, como justiça social e redução das desigualdades.
Partidos políticos passaram a criar espaços de diálogo com esse público, ampliando a disputa dentro do próprio campo religioso.
Desigrejados: um novo ator na disputa
Outro fenômeno relevante é o crescimento dos chamados “desigrejados” — evangélicos que mantêm sua fé, mas não estão vinculados a instituições religiosas.
Esse grupo, estimado entre 8% e 11%, representa um eleitorado mais independente, menos suscetível à influência direta de lideranças religiosas e mais aberto a diferentes narrativas políticas.
Juventude, redes sociais e formação de opinião
Entre os jovens, o cenário é marcado por forte influência digital. As redes sociais tornaram-se ferramentas centrais na formação de opinião, ampliando o alcance de lideranças religiosas e políticas.
Esse público é impactado tanto por discursos conservadores — ligados à moral, família e empreendedorismo — quanto por narrativas progressistas, voltadas à justiça social e inclusão.
Lideranças e influência no debate público
No meio evangélico, destacam-se lideranças com forte presença digital e grande capacidade de mobilização, como Silas Malafaia, André Valadão, Deive Leonardo e o bispo Samuel Ferreira, presidente da Assembleia de Deus do Brás.
No meio católico, além de Frei Gilson — que se destaca pela mobilização digital e forte alcance entre os jovens —, outras lideranças também exercem influência significativa no cenário religioso e, indiretamente, no debate público. Entre elas estão o padre Paulo Ricardo, com atuação marcante no campo conservador; o padre Reginaldo Manzotti, com grande presença nos meios de comunicação; o padre Fábio de Melo, que dialoga com diferentes públicos por meio de uma abordagem mais ampla e contemporânea; e o padre Chrystian Shankar, conhecido por suas pregações voltadas à vida familiar e espiritual.
O cenário em Alagoas
Em Alagoas, o cenário acompanha a tendência nacional, ainda que com particularidades. Segundo o IBGE, o estado possuía aproximadamente 609 mil evangélicos em 2022, representando cerca de 22,9% da população com 10 anos ou mais.
O crescimento foi expressivo: cerca de 52% entre 2010 e 2022.
Na capital, Maceió, o percentual já se aproxima da média nacional, com cerca de 29,88% da população se declarando evangélica. Em cidades como Maragogi, Porto Calvo, Campestre e Matriz de Camaragibe, esse número ultrapassa os 40%, com alguns municípios já apresentando maioria evangélica.
Apesar disso, o Nordeste ainda é a região com menor proporção de evangélicos no país, e Alagoas está entre os estados com menor percentual, à frente apenas de Pernambuco e Piauí. Ainda assim, o ritmo de crescimento indica avanço significativo.
No entanto, quando se observa a representação política institucional, percebe-se um descompasso entre o tamanho desse grupo e sua presença nos espaços de poder. Atualmente, na Assembleia Legislativa de Alagoas, apenas uma vaga está diretamente ligada à chamada bancada evangélica, representada por Mesaque Padilha. Na Câmara Municipal de Maceió, a situação se repete: há apenas um representante com esse vínculo mais direto, o vereador pastor João Luiz, que assumiu recentemente.
Ou seja, mesmo com um percentual expressivo da população, a presença evangélica nos parlamentos locais ainda é reduzida, evidenciando que o crescimento religioso nem sempre se traduz, de forma automática, em força política institucional.
De ideologia à teologia: o novo campo de disputa
Se, no passado, a disputa política se concentrava no campo ideológico, em 2026 ela avança para o campo teológico.
A capacidade de influência das lideranças religiosas — especialmente sobre grandes comunidades — torna-se um fator decisivo. Quem conseguir dialogar, convencer e mobilizar essas lideranças poderá impactar diretamente a formação de opinião de milhões de eleitores.
Conclusão
Mais do que números, o que está em jogo nas eleições de 2026 é a disputa pela consciência coletiva em um país onde fé, política e identidade social estão profundamente interligadas.
A fé, agora, não apenas orienta — ela disputa, influencia e decide.
E diante de um crescimento tão expressivo, a pergunta que permanece é inevitável: a força da fé vai se converter em poder político real ou continuará limitada aos púlpitos e templos?