Shampoo de bebê? JHC tenta ser neutro, mas irrita direita e pode enfrentar palanque conservador em Alagoas
Aproximação com Ronaldo Lessa abre crise com bolsonaristas; Leonardo Dias já descartou apoio e PL pode lançar candidatura própria ao governo
JHC já foi chamado de “shampoo de bebê” por tentar se apresentar como neutro - nem totalmente à direita, nem totalmente à esquerda. O apelido, em vez de incomodar, chegou a ser incorporado em tom de meme pelo próprio grupo político do ex-prefeito de Maceió em um perfil de rede social de apoio a sua candidatura (jhcportodaalagoas).
Mas, para setores conservadores, a neutralidade virou problema.
A aproximação de JHC com Ronaldo Lessa, nome histórico da esquerda alagoana, passou a ser vista por lideranças bolsonaristas como uma ruptura com os ideais da direita em Maceió. O movimento abriu uma crise no campo conservador e pode obrigar o PL a lançar candidatura própria ao Governo de Alagoas em outubro.
O vereador Leonardo Dias, uma das vozes mais identificadas com o bolsonarismo em Maceió, já descartou apoio a JHC em razão da composição com Lessa. Para ele, esta aliança representa um afastamento claro do campo conservador, incluindo, segundo ele a adoção de política de “ideologia de gênero” na Educação em Maceió.
A situação cria um dilema para JHC. Ao buscar ampliar seu arco político e atrair setores de centro e centro-esquerda, o ex-prefeito perde parte da base conservadora que foi decisiva em Maceió.
Do outro lado, Renan Filho, ex-ministro de Lula e pré-candidato ao governo estadual, já deixou claro que tem lado. Seu palanque está alinhado às forças progressistas que apoiam a reeleição de Lula na disputa nacional.
Nesse cenário, o PL pode ser pressionado a montar um palanque completo em Alagoas para Flávio Bolsonaro e para a frente conservadora nacional. A avaliação nos bastidores é que o partido não pode ficar sem candidatura competitiva ao governo em um estado onde a capital tem forte presença bolsonarista.
Entre os nomes citados nesse campo estão Alfredo Gaspar, Arthur Lira, lideranças do PL e o Republicanos, que tem Davi Davino Filho como possível nome ao Senado. A definição ainda depende de articulações, mas a hipótese de candidatura própria ganha força.
O maior temor de JHC que é frágil no interior, é justamente esse: a divisão da direita na capital, seu maior reduto.
Se o PL lançar candidato ao governo, a disputa pela capital pode ser rachada ao meio. Maceió, principal reduto eleitoral de JHC, também é um território importante para o bolsonarismo. Uma candidatura conservadora própria poderia tirar votos preciosos do ex-prefeito e enfraquecer mais ainda seu projeto estadual.
Ronaldo Lessa, por sua vez, voltou ao campo de JHC após anos de afastamento. Nos bastidores, aliados lembram que a relação entre os dois já teve desgaste, especialmente após Lessa se sentir desprestigiado durante a gestão municipal.
Agora, sua volta ao grupo de JHC é lida de duas formas: como reforço político para manter cargos para seus correligionários (o que já acontece na prefeitura) e pouca densidade eleitoral numa disputa eleitoral, se tentasse voo solo.
A eleição de outubro, portanto, pode colocar JHC diante de uma contradição difícil de administrar. Para crescer fora da direita, ele tenta parecer moderado. Mas, ao fazer isso, pode perder justamente o eleitorado que o ajudou a consolidar força em Maceió.
O “shampoo de bebê” tentou ser neutro.
Mas, em política, neutralidade demais também arde nos olhos.