POLÍTICA | ACORDÃO NO CONGRESSO

Valdemar expõe Alcolumbre e diz que dosimetria estaria condicionada ao enterro da CPI do Banco Master; veja vídeo

Por Redação Publicado em 03/05/2026 às 14:42
Valdemar da Costa Neto abre o jogo sobre Alcolumbre

Presidente do PL afirmou que aliados queriam votar a dosimetria desde que a CPI do Banco Master não avançasse no Senado; fala reforçar a acusação de que o presidente do Congresso estaria operando para proteger os interesses da extrema direita e dos setores atingidos pela investigação

A crise política em torno do presidente do Congresso Nacional, o senador Davi Alcolumbre, ganhou novo complemento com declarações do presidente nacional do Partido Liberal, Valdemar da Costa Neto. Em entrevista, o dirigente do PL afirmou que recebeu uma proposta para viabilizar a votação da dosimetria penal, já que não estava instalada a CPI do Banco Master no Senado.

A fala é explosiva porque conecta duas pontas sensíveis da política nacional: de um lado, o interesse bolsonarista em alterar regras de segurança que podem beneficiar os condenados pelos atos golpistas; do outro, a resistência à abertura de uma investigação parlamentar sobre o Banco Master, caso que, segundo o próprio Valdemar, pudesse atingir “meio mundo”.

"Eu tive uma proposta essa semana. Eu falei com o Rogério Marinho. Eles querem votar dosimetria, desde que não faça CPI do Banco Master no Senado", declarou Valdemar. Questionado se Davi Alcolumbre estaria entre os que resistem à instalação da CPI, o presidente do PL respondeu de forma direta: “Alcolumbre é um deles”.

“Porque o alcance”, disse Valdemar


Na sequência, Valdemar foi ainda mais incisivo. Ao ser questionado se Alcolumbre não queria a CPI do Banco Master, respondeu: “Lógico que não”. E, ao explicar o motivo, afirmou: “Porque o alcance”. Para o presidente do PL, a investigação teria potencial para alcançar uma ampla rede de interesses políticos e econômicos.

A declaração joga luz sobre o que deputados governamentais recebem chamada de “acordão” no Congresso. Na leitura feita pelos parlamentares da base do governo Lula, a votação da dosimetria teria deixado de ser apenas uma pauta jurídica ou penal para se transformar em moeda de troca política entre setores da extrema direita, Centrão e grupos específicos em impedir que a CPI do Banco Master saia do papel.

Valdemar também afirmou que a CPI “atinge meio mundo” e sugeriu que, na troca do não avanço da investigação, teria articulação para anistia. “Aí eles fariam anistia”, disse o presidente do PL, acrescentando que já foram feitos outros acordos para votar dosimetria, mas que esses entendimentos não foram cumpridos.

Alcolumbre no centro do caldeirão


As declarações de Valdemar reforçam o tom do discurso feito pelo deputado federal Rogério Correia em sessão mista do Congresso. Correia acusou Alcolumbre de ter sido “ovacionado pela extrema direita” e de conduzir uma costura política que, segundo ele, teria agradado bolsonaristas, Centrão e mercado.

Na prática, a fala do presidente do PL dá munição ao argumento de que Alcolumbre não estaria apenas presidindo o Congresso, mas operando no centro de um caldeirão de interesses. A dosimetria, nesse cenário, aparece como o prêmio político de extrema direita. A CPI do Banco Master, por outro lado, seria o incômodo que muitos prefeririam enterrar.

Segundo reportagem do Metrópoles, o presidente do Senado teria acertado com a oposição o engajamento da CPI do Banco Master em troca da votação do veto presidencial ao Projeto de Lei da Dosimetria, pauta de interesse direto de parlamentares bolsonaristas por alterar regras de cálculo de penas e progressão de regime.

Dosimetria, anistia e Banco Master


O chamado PL da Dosimetria foi aprovado pelo Congresso, mas vetado pelo presidente Lula. O texto reduz a pena final de condenados enquadrados em mais de um crime dentro do mesmo ato golpista, inclusive nos processos ligados às tentativas de golpe de Estado de 2022 e 2023. O veto ainda precisa ser aplicado pelo Congresso, que pode mantê-lo ou derrubá-lo.

Para a oposição bolsonarista, a derrubada do veto é tratada como prioridade. Para os governantes, a proposta representa uma anistia disfarçada e abriria um caminho para aliviar a situação de Jair Bolsonaro e de aliados condenados ou investigados por atos contra a democracia.

É nesse ponto que a fala de Valdemar se torna politicamente devastadora para Alcolumbre. O presidente do PL não é adversário da dosimetria; ao contrário, comanda o partido de Bolsonaro. Mesmo assim, revelou que a pauta estaria sendo condicionada ao bloqueio de uma CPI que poderia expor personagens poderosos. Ou seja: a própria direita deixou escapar o cheiro do acordo.

Alcolumbre negou e chamou Valdemar de “mitômano”


Davi Alcolumbre negou as acusações. Em resposta pública, o presidente do Senado disse estar “estrelado” com as declarações de Valdemar e afirmou que nunca tratou com o presidente do PL sobre votação de vetos da dosimetria ou sobre a CPI do Banco Master. Na ocasião, Alcolumbre chamou Valdemar de “mitômano”, termo usado para se referir a quem mente reiteradamente.

Depois da ocorrência, Valdemar tentou reduzir o atrito direto. Segundo o Congresso em Foco, o presidente do PL negou ter firmado acordo direto com Alcolumbre, mas manteve a cobrança sobre a CPI e afirmou que sua instalação “depende da caneta” do presidente do Senado. “O que eu falei não é mentira”, declarou.

A tentativa de retirada, porém, não apagou o conteúdo político da denúncia. Valdemar pode até ter calibrado o tom depois da ocorrência de Alcolumbre, mas não retirou a essência da acusação: a CPI do Banco Master estaria sendo travada no Senado, e a dosimetria teria entrado no balcão das negociações.

O presidente do Congresso sob suspeita política


O episódio coloca Alcolumbre em uma posição delicada. Como presidente do Senado e do Congresso, ele controla ritmos, pautas e encaminhamentos capazes de decidir o destino de temas sensíveis. Quando o próprio presidente do partido de Jair Bolsonaro afirma que a votação da dosimetria estaria ligada ao enterro da CPI do Banco Master, a crise deixa de ser apenas disputa de bastidor e passa a expor um problema institucional.

A pergunta política que fica é direta: o Congresso está votando com independência ou funcionando como balcão de compensações entre interesses cruzados?

Para os críticos de Alcolumbre, a resposta já está dada. O presidente do Congresso estaria correspondendo às expectativas da extrema direita ao abrir caminho para a dosimetria, enquanto mantém sob controle um IPC capaz de produzir desgaste em setores influentes. É o tipo de movimento que alimenta a percepção de que, em Brasília, investigações incômodas podem ser trocadas por votações convenientes.

Acordo por cima, desgaste por baixo


No plenário, Rogério Correia resumiu essa leitura ao afirmar que houve um “acordão por cima”, sem o povo brasileiro. A fala de Valdemar, agora, dá contornos ainda mais concretos a essa acusação. Se a CPI do Banco Master é tão perigosa a ponto de entrar como moeda de troca, a pergunta obviamente é: quem tem medo da investigação?

Alcolumbre nega qualquer tratativa. Valdemar diz que não mencionou. A oposição quer a dosimetria. Governistas acusam uma manobra de anistia disfarçada. E, no meio desse jogo, o Banco Master aparece como uma peça que todos citam, mas poucos querem ver investigada em profundidade.

O resultado é um Congresso sob forte suspeita política, com o presidente da Casa acusado de operar uma engenharia que promove a extrema direita, poupa interesses sensíveis e transforma bases institucionais em moeda de troca.

O espaço fica aberto para manifestação de Davi Alcolumbre, do Partido Liberal, de Rogério Marinho e dos demais citados.