Sob aplausos da extrema direita, Alcolumbre vira símbolo de acordão no Congresso
Em discurso duro na sessão mista, deputado federal acusa presidente do Congresso de conduzir articulação que teria agradado bolsonaristas, Centrão e mercado, abrindo caminho para anistia e retrocessos trabalhistas
O deputado federal Rogério Correia fez um dos discursos mais duros da sessão mista do Congresso Nacional ao se dirigir diretamente ao presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre. Em tom de confronto, o parlamentar acusou o senador de direção uma articulação política que, ele, teria favorecido a extrema direita, o Centrão, setores do mercado financeiro e grupos específicos em anistiar Jair Bolsonaro e aliados envolvidos nos atos golpistas.
Logo no início da fala, Rogério Correia ironizou a atuação de Alcolumbre e disse que o presidente do Congresso teria sido “ovacionado pela extrema direita”. O deputado também afirmou que o senador “adivinhou” o resultado de uma votação, ao citar o número de votos obtidos em plenário.
"Eu quero lhe dar os parabéns, presidente Davi. O senhor foi ovacionado pela extrema direita, mas também o senhor adivinhou a votação. Oito votos. Acertou em cheio", afirmou.
A partir daí, o discurso ganhou um tom ainda mais agressivo. Rogério Correia insinuou que o resultado teria sido fruto de uma ampla política de negociação, marcada, segundo ele, por concessões à direita e à extrema direita. O parlamentar usou a expressão “mexer o caldeirão” para se referir às articulações internas no Congresso.
"Não deve ser tão difícil. Tem que saber mexer bem o caldeirão, tem que fazer muito acordão, tem que estar ciente daqueles indicados: trair e coçar é só começar", disparou.
Deputado fala em articulação com “golpistas”
No ponto mais incisivo do discurso, Rogério Correia afirmou que parte dos votos teriam sido obtidos, em sua avaliação, por meio de acenos a parlamentares bolsonaristas. Ele citou a retirada de temas sensíveis da pauta e a possibilidade de avanço de propostas de interesse de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo o deputado, bastaria “agradar” os chamados “golpistas” para garantir o apoio político.
"Trinta votos de golpista é só tirar o Banco Master e votar anistia para Bolsonaro e para os generais. Agradou 30 golpistas. Só isso são 30 votos. Não é tão difícil", afirmou.
Rogério Correia classificou esse movimento como parte da “continuidade do golpe permanente”. Para ele, o que estaria em curso no Congresso não seria apenas uma disputa regimental ou parlamentar, mas uma tentativa de reorganização política de extrema direita em torno de uma agenda de anistia e de enfrentamento às instituições.
O deputado também fez referência a parlamentares e figuras públicas que, segundo ele, estariam com pendências judiciais ou sob investigação no Supremo Tribunal Federal. Em tom de denúncia política, casos relacionados a rachadinhas, lavagem de dinheiro, malas não declaradas e corrupção.
Críticas às emendas e ao mercado
Rogério Correia também acusou o Congresso de usar emendas parlamentares como instrumento de composição política. Segundo ele, os votos poderiam ter sido conquistados com emendas “secretas” ou de comissão, numa crítica direta ao modelo de negociação entre Executivo, Legislativo e grupos partidários.
"Arruma mais dois com emenda parlamentar. Pode ser secreto, de comissão. Dá quarenta e dois. O senhor fez a conta certinha", declarou.
O deputado afirmou ainda que o suposto acordo não envolveria apenas parlamentares da direita e da extrema direita, mas também setores econômicos específicos em barrar pautas sociais e trabalhistas. Ele citou, entre os temas rejeitados pelo chamado “mercado”, a redução da jornada 6x1, a taxação de grandes fortunas, o aumento de investimentos em saúde e educação e a ampliação de direitos dos trabalhadores.
"Seis por um, de jeito nenhum, não passa. Cobrar imposto de muito rico, de jeito nenhum, não passa no Congresso. Aumentar educação e saúde, também não", afirmou.
Para Rogério Correia, a aliança entre Centrão, extrema direita e setores econômicos teria como objetivo impedir avanços sociais e preservar privilégios.
“Acordão por cima”, diz parlamentar
Em outro trecho do discurso, o deputado afirmou que o acordo foi feito “por cima”, sem participação popular. Segundo ele, embora a articulação tenha força dentro do Congresso, a definição política maior ocorrerá nas eleições, pelo voto dos brasileiros.
“Vocês fizeram o acordo por cima, mas não fizeram o acordo com o povo brasileiro”, disse.
Rogério Correia afirmou que o eleitorado brasileiro estaria cansado de acordos políticos entre direita, extrema direita e setores fisiológicos do Parlamento. O deputado acusou o Centrão de se aliar ao que chamou de “neofascismo”, mesmo reconhecendo o desgaste dessa aproximação.
"Não adianta a direita tapar o nariz e falar: o neofascismo fede, mas eu vou com eles mesmo. É isso que o Centrão fez", declarou.
Defesa de Lula e ataque à agenda conservadora
Na parte final do discurso, Rogério Correia venceu o debate no Congresso na disputa eleitoral de 2026. Ele afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva buscará apoio direto no povo brasileiro para enfrentar o que foi classificado como “acordão Golpe 2026”.
O deputado disse que a população não deseja o fim da jornada 6x1 sem proteção trabalhista, nem reformas que, segundo ele, poderiam prejudicar a CLT, a Previdência Pública, os serviços de saúde, a educação e a estrutura administrativa do Estado.
"O povo brasileiro não quer reforma trabalhista para acabar com a CLT. O povo brasileiro não quer reforma da Previdência para acabar com a Previdência Pública. O povo brasileiro não quer reforma administrativa para privatizar saúde e educação", afirmou.
Rogério Correia também acusou a extrema direita de tentar atacar a democracia e o direito ao voto. Para ele, a eleição será uma resposta popular ao que chamou de “vergonha” praticada no Congresso.
"O povo brasileiro vai votar na democracia. O acordão Golpe 2026 que vocês fizeram cheira muito a Eduardo Cunha, mas cheira mais ao presidente Lula, que em outubro, junto com o povo, vai dar uma resposta a esta vergonha", concluiu.
O discurso terminou sob clima de tensão no plenário, com menção à presença do senador Sergio Moro e continuidade da sessão. Até o momento, Davi Alcolumbre não havia respondido, no plenário, às propostas feitas pelo deputado. O espaço permanece aberto para manifestação do presidente do Congresso e dos demais citados.