Vladimir Barros

Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e editor do jornal Tribuna do Sertão. Advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas, com pós-graduação em Direito Processual e Docência Superior. É também membro da Academia Palmeirense de Letras e fundador da Rádio Cacique FM de Palmeira dos Índios.

Vladimir Barros

OAB - Oprimidos Advogados Brasileiros? Os "seccionados" de Alagoas

Publicado em 27/05/2026 às 16:10
Sede da OAB em Alagoas Reprodução

Advogados de Alagoas relatam humilhações, inoperância do Judiciário, balcões virtuais ineficientes e sensação de abandono institucional; a classe cobra que a OAB assuma postura mais firme na defesa das prerrogativas.

A advocacia alagoana, especialmente a que atua no interior, vive uma rotina que já ultrapassou o limite do desconforto profissional. O que muitos advogados enfrentam diariamente não é apenas morosidade processual, nem simples dificuldade administrativa. É uma forma silenciosa e repetida de humilhação institucional.

O advogado, que pela Constituição é indispensável à administração da Justiça, muitas vezes tem sido tratado como obstáculo, incômodo ou pedinte. Em balcões virtuais que não funcionam adequadamente, em atendimentos frios, em despachos ignorados, em audiências ou contatos institucionais marcados pelo destrato, a classe sente na pele uma contradição inaceitável: quem deveria ter prerrogativas respeitadas termina sendo empurrado para a condição de suplicante.

O problema não é exclusivo de Palmeira dos Índios. Ele se espalha por todo o Estado de Alagoas. A discussão recente entre advogados, com participação de representantes da Ordem, revelou um sentimento coletivo de esgotamento. Houve relatos sobre falta de titulares, juizados que não funcionam, dificuldades nos cumprimentos de sentença, atos praticados apenas para cumprir metas e ausência de providências estruturais capazes de restabelecer a normalidade da prestação jurisdicional. Também foram mencionadas tratativas com a Corregedoria e informações sobre possíveis nomeações para varas da comarca, mas o sentimento dominante permanece: a advocacia está cansada de esperar.

A OAB, é preciso dizer, não pode se contentar em funcionar como balcão de benefícios, calendário de eventos, emissora de carteirinhas, promotora de cursos ou clube de serviços. Isso pode até ter utilidade, mas não é a essência da instituição. A essência da Ordem é defender a advocacia, preservar prerrogativas, enfrentar abusos, cobrar respeito e atuar com firmeza diante de qualquer autoridade que trate o advogado como figura secundária no sistema de Justiça.

Quando a OAB se limita a fazer marketing institucional, a divulgar serviços e a administrar conveniências, ela se afasta de sua razão histórica de existir. Um clube de serviço é facultativo: participa quem quer, paga quem quer, permanece quem vê vantagem. A OAB, entretanto, cobra anuidade compulsória de uma categoria que depende dela para ser representada. Por isso, não pode agir como se fosse apenas uma associação recreativa ou uma central de facilidades.

A advocacia não precisa apenas de descontos, eventos, certificados ou postagens bonitas nas redes sociais. Precisa de defesa real. Precisa de presença. Precisa de uma Ordem que entre em campo quando o advogado é destratado, quando o balcão virtual vira parede, quando o magistrado ignora prerrogativas, quando o cartório não responde, quando a comarca entra em colapso e quando a prestação jurisdicional deixa de servir ao cidadão.

Por isso, o trocadilho é duro, mas traduz um sentimento que cresce na base da classe: a OAB não pode virar a Ordem dos Advogados Balconizados, uma instituição que assiste seus inscritos sendo empurrados de balcão em balcão, de link em link, de espera em espera, sem resposta concreta. Também não pode se transformar na Ordem dos Advogados Barrados, incapaz de garantir que seus membros tenham acesso efetivo aos canais mínimos de trabalho.

A crítica não é contra este ou aquele dirigente isoladamente. É contra uma postura institucional que, em muitos momentos, parece tímida diante da gravidade do problema. A advocacia não pede privilégio. Pede respeito. Não pede favor. Pede cumprimento da lei. Não pede tratamento especial. Pede que suas prerrogativas sejam reconhecidas como garantia do cidadão, porque quando o advogado é humilhado, quem também é atingido é o jurisdicionado que ele representa.

A OAB precisa escolher que papel quer exercer. Ou reassume sua função histórica de voz firme da advocacia, com enfrentamento institucional, representação formal, cobrança pública, provocação da Corregedoria, acompanhamento de providências e defesa intransigente das prerrogativas; ou continuará sendo percebida por muitos advogados como uma entidade confortável para prestar serviços, mas fraca para enfrentar os problemas que realmente angustiam a classe.

A advocacia alagoana não quer caridade institucional. Quer respeito. Quer funcionamento. Quer dignidade. Quer uma OAB que volte a ser Ordem. Porque, quando a Ordem se cala ou apenas administra a insatisfação, a advocacia fica sozinha — e uma advocacia sozinha diante de um Judiciário inoperante é uma advocacia oprimida.