Vladimir Barros

Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e editor do jornal Tribuna do Sertão. Advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas, com pós-graduação em Direito Processual e Docência Superior. É também membro da Academia Palmeirense de Letras e fundador da Rádio Cacique FM de Palmeira dos Índios.

Vladimir Barros

O silêncio da cruz

Publicado em 03/04/2026 às 02:54
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Tribuna do Sertão

Há dias que passam.

E há dias que permanecem.

A Sexta-Feira Santa é um desses dias que não se deixam ir embora. Ela não termina quando o sol se põe. Não se dissolve na rotina. Não se perde no calendário.

Ela fica.

Fica como um peso suave no ar. Como um silêncio que não incomoda, mas que pede respeito. Como uma pausa que a humanidade inteira, mesmo sem perceber, parece fazer.

É o dia da cruz.

O dia em que a dor ganhou forma.

O dia em que o sofrimento deixou de ser apenas humano e se tornou também divino.

Porque há algo profundamente perturbador — e ao mesmo tempo profundamente belo — na ideia de um Deus que sofre.

Não um Deus distante.

Não um Deus intocável.

Mas um Deus que sente.

Que é traído.

Que é abandonado.

Que é humilhado.

Que sangra.

Que cai.

Que carrega o peso de algo que não era seu.

A cruz não é apenas um símbolo religioso.

É um espelho.

Ali está o retrato de tudo aquilo que a humanidade é capaz de fazer — de pior e de melhor.

De pior, quando julga sem ouvir.

Quando condena sem compreender.

Quando agride, humilha e destrói.

De melhor, quando ama mesmo sendo rejeitado.

Quando perdoa mesmo sendo ferido.

Quando permanece de pé, mesmo quando tudo convida a desistir.

A Sexta-Feira Santa é desconfortável.

Porque ela não permite distrações.

Não há celebração fácil.

Não há alegria pronta.

Há dor.

Há silêncio.

Há reflexão.

É como se o mundo inteiro fosse convidado a olhar para dentro.

E talvez seja isso que mais incomoda.

Olhar para dentro.

Porque ali, no fundo, cada um carrega suas próprias cruzes.

Algumas visíveis.

Outras escondidas.

Há cruzes feitas de perdas.

De arrependimentos.

De culpas.

De escolhas erradas.

De palavras que não deveriam ter sido ditas.

De silêncios que não deveriam ter existido.

E há também as cruzes invisíveis.

Aquelas que ninguém vê, mas que pesam todos os dias.

A solidão.

O medo.

A ansiedade.

A dúvida.

A dor que não se explica.

E, diante disso tudo, a cruz de Cristo ganha outro sentido.

Não é apenas um acontecimento distante, ocorrido há mais de dois mil anos.

É uma linguagem.

Uma forma de dizer que o sofrimento não é o fim.

Que a dor não é inútil.

Que o silêncio não é abandono.

Naquele dia, tudo parecia perdido.

Os discípulos dispersos.

A esperança esmagada.

O futuro interrompido.

O céu em silêncio.

E talvez esse seja o ponto mais difícil de compreender.

O silêncio de Deus.

Porque há momentos na vida em que parece que tudo está calado.

Que as respostas não vêm.

Que o sentido desaparece.

Que o sofrimento não tem explicação.

A Sexta-Feira Santa ensina que esse silêncio também faz parte do caminho.

Não como abandono.

Mas como travessia.

Porque há algo que só pode ser compreendido depois da dor.

Depois da noite.

Depois da queda.

E essa talvez seja a maior lição da cruz.

A de que o amor não recua.

Não se vinga.

Não abandona.

Mesmo quando é ferido.

Mesmo quando é injustiçado.

Mesmo quando é levado ao limite.

O amor permanece.

E permanece até o fim.

Por isso, a Sexta-Feira Santa não é apenas sobre morte.

É sobre sentido.

É sobre profundidade.

É sobre aquilo que realmente importa quando tudo o resto perde valor.

Porque, diante da cruz, desaparecem as vaidades.

Desaparecem as disputas pequenas.

Desaparecem os excessos.

Resta apenas o essencial.

A vida.

O amor.

O perdão.

A dignidade.

Talvez o mundo precisasse de mais dias como esse.

Dias em que se fala menos.

Dias em que se escuta mais.

Dias em que se julga menos.

Dias em que se sente mais.

Porque, no fim das contas, a cruz não está apenas na história.

Ela está na vida.

Está nos desafios que enfrentamos.

Nas perdas que carregamos.

Nas escolhas que precisamos fazer.

E, sobretudo, na forma como decidimos viver apesar de tudo isso.

A Sexta-Feira Santa nos lembra que a dor existe.

Mas também nos lembra que ela não é a última palavra.

Porque o silêncio da cruz… não é o fim.

É apenas o começo de algo que ainda está por vir.