Vladimir Barros
É advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas e pós-graduado em Direito Processual e Docência Superior. Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e da Associação Brasileira de Imprensa; Editor do Jornal Tribuna do Sertão. É também membro da Academia Palmeirense de Letras (Palmeira dos Índios) e fundador da Rádio Cacique FM.A soberania não se rende ao tempo, o imperialismo, sim
A História tem uma virtude que os arrogantes costumam desprezar: ela não esquece. Pode até demorar, mas cobra. E quando cobra, o faz com a frieza de quem apenas registra os fatos, sem adjetivos nem misericórdia. É por isso que, sempre que os tambores do intervencionismo voltam a rufar, vale lembrar episódios que os manuais de poder preferem empurrar para notas de rodapé.
Em 1961 - e não por acaso ainda ecoando forte em 1962 - os Estados Unidos tentaram, pela força, derrubar o governo revolucionário de Cuba na invasão da Baía dos Porcos. Um plano mal calculado, arrogante, conduzido à sombra da Guerra Fria, que terminou em derrota humilhante. Tropas treinadas, armadas e financiadas por Washington foram rechaçadas por um país pequeno, pobre, mas decidido a defender sua soberania. O império tropeçou onde acreditava que pisaria sem resistência.
A Baía dos Porcos virou símbolo. Não de virtude ideológica, mas de um fato simples e incômodo: nenhum país aceita ser invadido sem reagir. E nem sempre o mais forte vence.
Poucos anos depois, a lição seria ainda mais dura no Sudeste Asiático. O Vietnã - dividido, destruído, bombardeado por anos - resistiu à maior máquina de guerra do planeta. A retirada americana, em 1975, com helicópteros decolando às pressas de Saigon, marcou uma das maiores derrotas militares e morais da história dos United States. Milhões de mortos depois, ficou claro que tecnologia não substitui legitimidade, e bombas não compram o direito de mandar.
O tempo foi implacável com o chamado “imperialismo yankee”. E sempre é. Impérios não caem de um dia para o outro, mas nenhum sobrevive ileso ao desgaste da história. Todos acreditam ser eternos - até descobrirem que não são.
Isso não significa, é preciso dizer com honestidade intelectual, que líderes como Nicolás Maduro sejam santos. Não são. Governos podem errar, abusar, falhar, oprimir. Críticas internas são legítimas. Oposição política é necessária. Cobrança popular é saudável. Mas há uma linha que não pode ser cruzada sem corromper tudo: a linha entre soberania e agressão externa.
Uma coisa é criticar um governo.
Outra, muito diferente, é promover assalto à mão armada internacional.
Invasão não é diplomacia.
Sequestro não é política externa.
Homicídio não é “defesa da democracia”.
E desrespeito à soberania nunca foi — nem nunca será — solução.
Quando uma potência decide que pode intervir onde quiser, como quiser, cria-se um mundo sem regras, onde a força substitui o direito. E esse mundo, cedo ou tarde, cobra seu preço — inclusive de quem se achava intocável.
A Venezuela precisa resolver seus problemas. Mas precisa fazê-lo como nação soberana, com seus erros, seus acertos, suas dores e seus aprendizados. O que vem de fora, quando vem armado, raramente traz liberdade. Costuma trazer ruína.
A História já mostrou: Baía dos Porcos, Vietnã, e tantos outros episódios provam que o imperialismo pode até avançar por um tempo, mas não resiste à memória dos povos nem à erosão do tempo. A soberania, essa sim, continua sendo um valor que atravessa gerações.
E quem insiste em ignorá-la acaba lembrado não como herói, mas como erro histórico.