VATICANO

Papa lança 1ª encíclica e faz alerta sobre IA: 'Nova forma de escravidão'

No documento, Leão XIV defende o desarmamento e a promoção da dignidade

Por Redação ANSA Publicado em 25/05/2026 às 10:50
Papa também aborda direito dos povos à existência © ANSA/AFP

O papa Leão XIV lançou nesta segunda-feira (25) a primeira encíclica de seu pontificado, na qual faz um amplo alerta sobre os riscos éticos da inteligência artificial, o avanço das guerras e a concentração de poder tecnológico nas mãos de poucos grupos econômicos.

Com mais de 200 páginas, o documento "Magnifica Humanitas" é dividido em cinco páginas e se inicia com uma reflexão sobre o futuro da humanidade: "A magnífica humanidade criada por Deus enfrenta hoje uma escolha decisiva: erguer uma nova 'Torre de Babel' ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos".

Ao longo do texto, o pontífice afirma que justiça e fraternidade ainda são possíveis, mas alerta que a era da inteligência artificial ameaça obscurecer a dignidade humana "por novas formas de desumanização".

Segundo Leão XIV, existe um "dever urgente de permanecer profundamente humanos".

O Papa defende a necessidade de "desarmar a IA", retirando-a da lógica da competição militar, econômica e cognitiva. Além disso, condena a corrida armamentista nuclear, critica a expansão da indústria bélica e denuncia o fortalecimento de grupos armados e jihadistas que lucram com os conflitos.

Leão XIV também faz um duro alerta contra armas baseadas em inteligência artificial. "Não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável", afirma a encíclica.

De acordo com o texto, a tecnologia não elimina "a desumanidade intrínseca" dos conflitos, mas os torna mais rápidos e impessoais, "reduzindo o limiar moral para o uso da violência e transformando a defesa em previsão operacional, com as vítimas reduzidas a dados".

A encíclica pede a criação de restrições éticas internacionais rigorosas para tecnologias militares e sistemas autônomos de ataque. Para o Papa, qualquer ferramenta que permita atacar sem "ver o rosto do outro" reduz os limites morais da guerra.

O documento também aborda o direito dos povos à existência e condena qualquer tentativa de subjugar ou eliminar países: "Qualquer tentativa ou plano para eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, portanto, inaceitável".

Outro eixo central da encíclica é a denúncia de uma "nova forma de escravidão" ligada à economia digital e à inteligência artificial, desde a mineração de terras raras até o trabalho com bancos de dados.

"Não podemos negar ou minimizar a demora com que a Igreja e a sociedade condenaram o flagelo da escravidão" e "por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão", declarou o religioso, recordando de formas passadas de escravidão.

O líder da Igreja Católica afirma que milhões de pessoas sustentam silenciosamente a infraestrutura tecnológica global por meio de trabalhos invisíveis e mal remunerados, como rotulagem de dados, moderação de conteúdo e treinamento de modelos de IA.

O texto destaca ainda a exploração de crianças e adolescentes na extração de terras raras utilizadas em dispositivos tecnológicos e microprocessadores. "Os mesmos circuitos digitais que sustentam a economia digital são sustentados pelo trabalho silencioso de milhões de seres humanos, empregados em atividades pouco visíveis, mas essenciais", afirma.

De acordo com a encíclica, trabalhadores têm seus corpos "marcados, mutilados e desgastados" para manter o fluxo da economia digital.

Leão XIV também denuncia o uso de plataformas online por redes criminosas para tráfico humano, especialmente de menores de idade, transformando pessoas em "dados" e "pacotes" transportados digitalmente.

Em outro trecho, o pontífice critica a concentração de riqueza e conhecimento tecnológico nas mãos de poucas empresas. "Não podemos deixar que alguns poucos atores conduzam os processos sozinhos", afirma, defendendo que Estados e instituições internacionais criem regras justas e mecanismos de proteção para garantir participação ampla nas decisões que impactam a sociedade.

A encíclica reúne referências religiosas, filosóficas e culturais. Entre elas, aparece uma citação de "O Senhor dos Anéis", de John Ronald Reuel Tolkien, na qual o mago Gandalf diz: "Não nos cabe controlar todas as marés do mundo; nossa tarefa é fazer o que pudermos pela salvação dos anos em que vivemos, erradicando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que vierem depois possam cultivar uma terra saudável e limpa".

O texto também cita pensadores e personalidades históricas como Santo Agostinho, mas também São Tomás de Aquino e Platão.

Os Papas mais recentes são todos mencionados, começando com Leão XIII e sua "Rerum Novarum", que inspirou Robert Prevost para este primeiro documento magisterial importante. Além dele, há também Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco.

Há pessoas que mudaram o curso da história de seus países, como Martin Luther King e Nelson Mandela, e mulheres que, em suas diversas áreas de atuação, transformaram a maneira de pensar: Santa Laura Montoya, Santa Teresa de Calcutá, Dorothy Day, Maria Curie, Maria Montessori, Elisabeth Elliot, Wangari Maathai, Benziñez Bhutto.

A encíclica também cita alguns mártires: Maximiliano Kolbe, Oscar Romero, Enrique Angelelli, François-Xavier Nguyen Van Thuan.

Por fim, há referências à Carta das Nações Unidas, aos documentos do Concílio Vaticano II, aos quais o Papa dedica as catequeses das audiências gerais de quarta-feira, e ao Compêndio da Doutrina Social da Igreja.