“OIL TO AMERICA”: anúncio de Trump sobre 30 a 50 milhões de barris reacende acusação de “mão grande” sobre o petróleo venezuelano
Um anúncio atribuído ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, divulgado nas redes e repercutido pela imprensa internacional, voltou a colocar a Venezuela no centro de uma disputa que mistura geopolítica, sanções e a velha tentação de tratar petróleo como “espólio” de poder.
Segundo a mensagem, as “autoridades interinas” venezuelanas teriam concordado em entregar entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo aos EUA. Trump afirma que o óleo seria vendido a preço de mercado, mas que o dinheiro ficaria sob controle direto do próprio presidente norte-americano, com a justificativa de “beneficiar o povo da Venezuela e dos Estados Unidos”.
The Guardian · 1
Na prática, o gesto é descrito por críticos como apropriação “na mão grande”: não é apenas comprar petróleo; é tirar o ativo estratégico do país e, sobretudo, controlar a receita.
O tamanho do “lote” na realidade venezuelana: é muito ou pouco?
1) Em relação às reservas da Venezuela, é pouco (mas simbolicamente explosivo).
A Venezuela é apontada como detentora das maiores reservas provadas do mundo, na casa de 303 bilhões de barris.
Se o anúncio fala em 30 a 50 milhões de barris, isso equivale a aproximadamente:
30 milhões / 303 bilhões = ~0,01% das reservas provadas
50 milhões / 303 bilhões = ~0,02% das reservas provadas
Ou seja: não “quebra” as reservas do país, mas tem peso político e jurídico enorme porque toca no nervo da soberania — quem manda no recurso e na receita.
Em relação à produção e ao caixa do país, é considerável.
A produção venezuelana tem oscilado perto de 1,1 milhão de barris/dia (estimativas citadas por analistas e consultorias no noticiário).
Nesse ritmo: 30 milhões de barris representam cerca de 27 dias de produção
50 milhões de barris representam cerca de 45 dias de produção
Em base anual, 1,1 milhão bpd dá algo em torno de 401 milhões de barris/ano.
Então, o volume anunciado (30–50 milhões) seria aproximadamente 7,5% a 12,5% da produção anual — uma fatia que pode mexer no caixa e na capacidade de importação/abastecimento interno, dependendo de como a receita do petróleo é usada (dívida, combustíveis, alimentos, remédios, estabilização cambial).
Quanto dinheiro isso envolve?
A Associated Press repercutiu que o volume de até 50 milhões de barris seria avaliado em cerca de US$ 2,8 bilhões (estimativa noticiosa).
Mesmo com variações de preço e descontos do petróleo pesado venezuelano, estamos falando de bilhões de dólares — e o ponto mais sensível do anúncio é justamente quem controla esse dinheiro.
Pode abalar a economia venezuelana?
Abalar estruturalmente, não (porque reservas são gigantes e a economia já opera sob múltiplas distorções).
Abalar no curto prazo, sim, se a transferência for real e rápida, porque:
equivale a 1 a 1,5 mês de produção;
pode retirar do país uma parcela relevante de receita imediata em dólar;
e cria precedente político: petróleo como “garantia” administrada por Washington, o que afeta percepção de risco, negociações e legitimidade interna.
Além disso, o contexto é de forte disputa internacional sobre o pós-crise venezuelano e sobre como reativar/refinanciar o setor de energia — inclusive com interesse explícito de refinarias e empresas nos EUA em processar petróleo venezuelano (especialmente o pesado, que encaixa no Golfo).
O que está por trás: soberania, sanções e “administração” externa
O anúncio menciona “petróleo sancionado” e fala em execução “imediata” com o secretário de Energia.
Mesmo sem entrar no mérito técnico do termo, o que chama atenção é o desenho político: a receita do petróleo de um país seria centralizada sob o chefe de Estado de outro país. É aí que a crítica de “mão grande” ganha força: não se trata apenas de comércio — trata-se de tutela do recurso e do dinheiro.