JUSTIÇA

Advogado é processado por ameaçar juiz durante audiência sobre o PCC

Marcos Roberto Cebola e Silva é acusado de coação após afirmar que juiz não 'adentraria ao Elísio'.

Por Estadao Conteudo Publicado em 29/09/2026 às 18:28
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial OpenAI (GPT Image)

A Justiça de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, recebeu a denúncia contra o advogado Marcos Roberto Cebola e Silva por coação no curso do processo. A acusação surgiu após uma audiência com réus ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), quando ele disse ao juiz Deyvison Heberth dos Reis que temia que o magistrado "não adentrasse ao Elísio" caso não revogasse prisões preventivas. O termo, usado na mitologia grega para se referir ao destino das almas após a morte, foi interpretado pelo juiz como uma ameaça velada.

Em sua defesa, o advogado afirma que não ameaçou o magistrado. Na época, disse que "todo mundo vai morrer um dia" e que sua fala tratava apenas do destino espiritual das pessoas, entre paraíso e inferno. O Estadão busca contato com Cebola.

O episódio ocorreu em outubro de 2025, durante uma audiência de instrução ligada à Operação Scream Fake. Cebola atuava na defesa de Kethelen Camila Souza Lemos e questionava a manutenção das prisões preventivas decretadas no processo.

Kethelen havia sido presa após tentar entrar em uma penitenciária com quatro cartões de memória escondidos na barra da calça. Segundo a investigação, os dispositivos continham informações sobre a contabilidade e o organograma de setores estratégicos do PCC.

Durante a audiência, antes da fala dirigida ao juiz, o advogado também mencionou o ex-delegado Ruy Ferraz Fontes, assassinado a tiros de fuzil meses antes em Praia Grande, no litoral paulista.

Enquanto fazia perguntas ao delegado Edmar Rogério Dias Caparroz e sustentava que o flagrante havia sido "forjado", Cebola citou uma declaração que atribuiu a Ruy sobre a existência de uma "ética" no mundo do crime.

Segundo a denúncia, a referência ganhou relevância porque Ruy Ferraz Fontes havia sido assassinado pouco antes em uma execução ligada ao PCC - a mesma organização criminosa investigada no processo em julgamento. O assassinato, porém, não fazia parte daquela ação penal.

Já no fim da audiência, durante a discussão sobre a manutenção das prisões preventivas, Cebola afirmou que seria "mais fácil revogar a prisão preventiva de todo mundo" e seguir com o processo.

Na sequência, ao se dirigir diretamente ao magistrado e fazer referências à "graça de Deus" e à "proteção de Deus", declarou: "Se o senhor não revogar essas prisões, eu temo o senhor não adentrar ao Elísio".

O juiz perguntou se aquilo era uma ameaça e quis saber o significado da expressão. Cebola respondeu que "Elísio" significava "paraíso".

A explicação não afastou a interpretação do juiz. Durante a audiência, Deyvison Heberth afirmou que, em quase 20 anos de carreira, nunca havia ouvido uma colocação semelhante e disse entender que o advogado sugeria que ele poderia morrer caso não revogasse as prisões.

O episódio deu origem a uma investigação por possível crime de coação no curso do processo. O caso foi apurado pela Polícia Civil e também teve atuação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

O juiz Gabriel Medeiros, da 1ª Vara de Presidente Venceslau, decidiu receber a denúncia apresentada contra o advogado. Com isso, Cebola passa a responder formalmente a uma ação penal.

"Os pedidos formulados pela autoridade policial comportam parcial deferimento, haja vista que as medidas requeridas se mostram necessárias, adequadas e proporcionais à gravidade concreta dos fatos", afirmou o magistrado na decisão.

Segundo ele, as medidas têm como objetivo preservar "a integridade, a tranquilidade e a liberdade de atuação funcional" de Deyvison Heberth dos Reis, além de garantir o andamento da ação penal.

A Justiça impôs medidas cautelares ao advogado. Cebola está proibido de manter contato com o magistrado por telefone, mensagens, aplicativos, e-mail, redes sociais ou por meio de terceiros.

A restrição não vale para manifestações feitas pelos canais oficiais do processo nem para atos judiciais em que a presença dos dois seja necessária.

O advogado deve manter distância mínima de 200 metros do juiz fora dessas situações e não poderá usar redes sociais ou outros meios eletrônicos para fazer referências ao caso de forma intimidatória, ameaçadora ou constrangedora.

Na época do episódio, o Tribunal de Justiça de São Paulo divulgou uma nota de repúdio às ameaças, ofensas e acusações pessoais dirigidas ao magistrado e informou que acionaria a OAB-SP para apurar a conduta.