Resiliência climática entra na pauta dos municípios diante do aumento de eventos extremos
Especialista em gestão pública destaca importância de planejamento, governança e projetos estruturados para reduzir vulnerabilidades e viabilizar acesso a recursos
Brasília, 28 de setembro de 2026 – Alagamentos, deslizamentos, ondas de calor e outros eventos extremos têm colocado a resiliência climática no centro dos desafios enfrentados pelas administrações municipais. Mais do que responder a situações emergenciais, as prefeituras precisam incorporar a prevenção e a adaptação às mudanças do clima ao planejamento de longo prazo, com ações que envolvam infraestrutura, gestão ambiental, organização orçamentária e redução de riscos.
Dados da Transparência Internacional Brasil reforçam o desafio. Em avaliação realizada com 233 municípios de oito estados, com dados coletados em 2025, apenas 12,9% publicavam um Plano de Adaptação à Mudança do Clima, enquanto 37,3% publicavam Planos de Contingência de Proteção e Defesa Civil (PLANCON). O levantamento também identificou que 92,3% dos municípios avaliados não apresentavam registros de audiências ou consultas públicas sobre mudanças climáticas e defesa civil.
Para Cícera Suzana, consultora e assessora em ESG para municípios da Supremo Negócios Públicos, a diferença entre uma atuação emergencial e uma política efetiva de resiliência está justamente na capacidade de transformar os riscos climáticos em metas, planejamento e projetos executáveis.
“A incorporação da resiliência climática à agenda ESG municipal exige uma transição de uma postura puramente reativa, pautada por despesas de emergência e socorro a desastres, para uma abordagem preventiva de gestão de ativos e redução de riscos”, explica.
Na avaliação da especialista, o tema deve ser incorporado ao ciclo de planejamento e orçamento dos municípios, com metas claras de adaptação e integração entre diferentes áreas da administração. A dimensão social também precisa ser considerada, uma vez que os impactos dos eventos extremos tendem a atingir de maneira mais intensa populações em situação de maior vulnerabilidade.
A agenda também já conta com instrumentos federais voltados ao fortalecimento da capacidade de adaptação das cidades. Instituído em 2024, o Programa Cidades Verdes Resilientes busca integrar políticas urbanas, ambientais e climáticas e prevê ações relacionadas a planejamento urbano sustentável, áreas verdes, recursos hídricos e soluções baseadas na natureza.
Da identificação do risco ao projeto
Para Cícera, transformar uma necessidade de adaptação em uma iniciativa capaz de receber financiamento exige mais do que identificar um problema. O município precisa apresentar diagnósticos técnicos, planejamento e capacidade de execução.
“Um projeto estruturado precisa demonstrar não apenas quanto uma obra vai custar, mas também quais danos podem ser evitados, qual população será beneficiada e quais resultados serão alcançados”, afirma a consultora.
Entre os critérios que podem ser considerados na estruturação estão análises de custo-benefício, indicadores de vulnerabilidade, soluções baseadas na natureza, governança institucional, estudos de viabilidade e mecanismos de monitoramento. O uso de dados científicos também é apontado como elemento importante para definir prioridades.
Lançado em julho de 2026, o Painel Cidades do AdaptaBrasil reúne informações sobre risco climático para os 5.570 municípios brasileiros, permitindo consultar indicadores de ameaça, exposição e vulnerabilidade em diferentes setores. A ferramenta foi desenvolvida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em conjunto com o INPE e a RNP.
“Antes de buscar recursos, o município precisa saber exatamente quais são suas vulnerabilidades e quais intervenções são prioritárias. A partir desse diagnóstico, é possível construir um plano de adaptação e, posteriormente, uma carteira de projetos com escopo, população beneficiada, estimativa de custos e indicadores de resultado”, explica Cícera.
Planejamento também é requisito para acessar recursos
O avanço da agenda de adaptação vem acompanhado da ampliação de mecanismos de financiamento. Em 2025, o Fundo Clima aprovou R$ 2,4 bilhões para projetos de adaptação climática, segundo o BNDES. A instituição também mantém linhas voltadas ao desenvolvimento urbano resiliente e ao apoio a municípios na implementação de soluções de adaptação e redução de riscos.
Um exemplo recente é Santos (SP), que teve R$ 200 milhões aprovados pelo BNDES para um plano de investimentos em adaptação e resiliência climática, com intervenções de drenagem, modernização de canais e comportas, proteção costeira e requalificação urbana. O projeto combina infraestrutura tradicional com soluções baseadas na natureza e deve beneficiar mais de 200 mil pessoas.
Nesse cenário, Cícera destaca que a preparação documental e técnica deve acompanhar a identificação das necessidades do município. O processo passa pelo diagnóstico dos riscos, elaboração de um plano de adaptação, criação de uma carteira de projetos, estruturação técnica, jurídica e financeira e, por fim, enquadramento na fonte de financiamento mais adequada. A apresentação ao financiador exige demonstrar capacidade técnica de contratação e gestão sob a Nova Lei de Licitações.
“Os recursos existem, mas o município precisa estar preparado para apresentar projetos tecnicamente consistentes, com planejamento, documentação e capacidade de execução. A necessidade, por si só, não transforma uma demanda em um projeto financiável”, afirma.
Para a especialista, a resiliência climática tende a ocupar espaço cada vez maior na gestão pública, não apenas como resposta aos desastres, mas como parte do planejamento urbano, da governança e da capacidade de investimento dos municípios.
Sobre a Supremo Negócios Públicos – A Supremo Negócios Públicos atua desde 2019 com consultoria estratégica para empresas, instituições e municípios que desejam ampliar sua atuação no setor público com segurança técnica e visão de resultado. Liderada por Cícera Suzana, profissional com mais de 15 anos de experiência em licitações e contratos públicos, a empresa também atua com ESG para municípios e elaboração de projetos para captação de recursos, apoiando gestores na transformação de oportunidades em projetos viáveis e financiáveis.
Ao longo de sua trajetória, já contribuiu para a geração de mais de R$750 milhões em resultados. Atualmente, apoia a estruturação de projetos sustentáveis e o acesso a financiamentos, sempre com foco em eficiência, conformidade e impacto real.