POLÍTICA

Análise aponta que Brasil pode deixar os BRICS caso Flávio Bolsonaro vença

Especialistas comentam sobre os impactos da eleição brasileira na política internacional

Por Sputnik Brasil Publicado em 29/09/2026 às 11:48
Especialistas discutem os rumos do Brasil no cenário internacional durante reunião em Moscou. © Sputnik / Maksim Blinov

Nesta semana, especialistas de diversos países estão reunidos na XXIII Reunião Anual do Clube Valdai de Discussões Internacionais, na região de Moscou. Cerca de 120 participantes de 40 países, inclusive do Brasil, participam do fórum, que conta sua história desde o ano de 2004.

Um dos objetivos da reunião, que durará quatro dias – de 28 de setembro a 1º de outubro, é discutir o assunto de controlabilidade e previsibilidade da vida internacional ante a crise de instituições intergovernamentais.

Ao participar da abertura na segunda-feira (28), Fabiano Mielniczuk, professor de ciências políticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro do Clube Valdai desde 2013, foca a atenção de que o surgimento da inteligência artificial levou à invenção de novo mecanismo da prática política usada pelos líderes ocidentais. Conforme ele, o Estado liberal ocidental como um todo usa a IA e a ajuda dos grandes conglomerados tecnológicos para projetar seu poder sobre outros Estados e impor uma moralidade única.

"Assim como as alucinações da inteligência artificial, muitos líderes ocidentais combinam palavras que têm vida própria e formulam frases que são logicamente coerentes, mas não têm fundamento na realidade", afirma Fabiano Mielniczuk, e essas "alucinações" ameaçam destruir a humanidade.

No relatório deste ano "Sem pânico: o Estado e responsabilidade pelo futuro", apresentado durante a sessão de abertura na segunda-feira (28), os autores apontam caos como característica assustadora da atual política internacional. Porém, na opinião deles, o Estado serve como instrumento para proteger o ser humano de incertezas.

Em entrevista à Sputnik Brasil no âmbito da reunião, Fabiano Mielniczuk detalhou as conclusões do relatório anual, ressaltando o papel que o Estado voltou a desempenhar com o avanço do desenvolvimento tecnológico no mundo. Chegou a hora em que é necessário pensar em limites, já que a tecnologia traz tanto possibilidades ilimitadas como riscos infinitos, enfatiza ele.

"Acho que a grande questão desse ano nos debates aqui é de que o Estado, que por muito tempo foi desmerecido como um ator que não seria importante na história no fim da Guerra Fria, volta a ter um protagonismo, e volta a ter um protagonismo fundamentado em questões éticas e questões morais. Sem o Estado para proteger o cidadão contra esse tipo de risco que nós corremos, vai ficar muito difícil de se viver decentemente na Terra."

Ao fazer o resumo, os atores do relatório mostram otimismo cauteloso, notando que as mudanças drásticas na arena internacional não é um desastre natural, mas sim um motivo para refletir por que as normas anteriores pararam de atender às novas exigências. Através das ações responsáveis é preciso garantir que o futuro seja melhor e não pior, concluíram.

BRICS: coordenação sem intermediação ocidental

O tema do desenvolvimento do BRICS e o crescimento de peso do agrupamento na arena internacional, inclusive após a adesão de novos membros, também não foi negligenciado pelos analistas às margens da reunião. O que acontece dentro do BRICS não é simplesmente o processo da desdolarização, destacou em entrevista à Sputnik Brasil Gustavo de Carvalho, chefe do programa em diplomacia e governança africana no Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais.

"É um processo de diversificação de mecanismos e sistemas quando começamos a ver o sistema do dólar americano não como um bem comum global, mas sim como uma ferramenta política que pode ser utilizada beneficamente muitas vezes, mas crescentemente vista de uma forma muito mais arriscada."

Para o analista, esse processo de diversificação de mecanismos serve para criar complementariedade em que membros transacionem internacionalmente de uma forma muito mais benéfica a si próprios.

Fabiano Mielniczuk acrescentou também que o BRICS, apesar de não ser uma aliança militar, serve como uma plataforma de coordenação dos seus membros, inclusive membros que têm problemas militares. Ele lembra episódios entre a China e a Índia, os Emirados Árabes Unidos e o Irã, a Etiópia e o Egito, que tinham pontos de discordância, mas que foram ou estão sendo intermediados dentro do BRICS.

"O BRICS tem uma grande vantagem, que ele é uma plataforma de coordenação entre países em desenvolvimento e países do Sul Global, que não precisa de intermediação dos países do Norte Global, dos Estados Unidos ou dos europeus, para que ela exista. [...] Os [países do] BRICS servem sim, eles contribuem sim para a maior estabilidade regional no mundo a partir de uma negociação que não é mediada pelo Ocidente, que muitas vezes tem interesse em criar conflitos, não resolver."

Eleição brasileira: dois cenários

O lema da reunião do Clube Valdai deste ano é "Responsabilidade pelo futuro: limites do possível ou possibilidades ilimitadas?", e deve estar ressoando com todos os brasileiros que decidirão seu futuro na eleição geral já neste fim de semana.

Fabiano Mielniczuk prevê dois cenários que podem ser vislumbrados. Caso o presidente atual seja reeleito, na opinião do analista, o Brasil terá uma postura mais corajosa em busca de aliados.

"O Brasil fez de tudo nesses últimos anos para não criar problemas com os Estados Unidos, mas os Estados Unidos criaram problemas com o Brasil. Então eu acredito que o presidente Lula, se ele for reeleito, ele vai ter uma política mais assertiva e favorável ao BRICS, à Rússia e à China, até para contrabalançar um pouco esse poder que os americanos exercem no nosso continente."

Entretanto, a vitória de Flávio Bolsonaro, um candidato bem alinhado aos EUA, mudará os rumos brasileiros, afirma o professor, avaliando uma possível trajetória do país sob novo comando.

"Então provavelmente eles vão entrar no Escudo para as Américas, que é a iniciativa de defesa norte-americana que já conta com uma grande parte dos vizinhos brasileiros. Provavelmente eles vão tentar reforçar a candidatura do Brasil para ser membro da OCDE, que é uma organização fundamentalmente, não é europeia, mas é uma organização que tem essa origem dos países desenvolvidos, e provavelmente eles vão criar entraves na cooperação com a Rússia, a cooperação com a China, e podem, inclusive, sair dos BRICS."


Por Sputinik Brasil