MORADIA

Protestos em Madri marcam despejo de idosa de 87 anos

Ato em defesa de direitos habitacionais ganha força após incidente com Maricarmen Abascal.

Por Estadao Conteudo Publicado em 28/09/2026 às 19:04
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial OpenAI (GPT Image)

Manifestantes indignados com o despejo de uma mulher de 87 anos acampam na histórica praça Puerta del Sol, em Madri, onde mais pessoas - incluindo várias gerações de uma mesma família - se uniram a eles no domingo, 27, e nesta segunda-feira, 28, para mais um dia de protestos contra a crise imobiliária na Espanha.

Dezenas de milhares de pessoas marcharam por Madri no sábado, 26, em protesto contra o despejo de Maricarmen Abascal de um apartamento no bairro nobre do Retiro, onde ela morava há mais de sete décadas. Alguns manifestantes continuaram no acampamento no domingo e nesta segunda.

Na mesma segunda-feira, os advogados de Maricarmen informaram que chegaram a um acordo com a empresa dona do apartamento que ela alugava, permitindo que ela retorne ao imóvel.

Os manifestantes exigem proteções mais robustas para os inquilinos, medidas contra fraudes e a proibição de despejos quando não houver alternativa de moradia disponível. Muitos se recusaram a deixar o local após a marcha de sábado e montaram barracas na Puerta del Sol para passar a noite.

"A situação habitacional é insustentável", disse Natalia Navarro, uma atriz de 27 anos que estava entre os acampados. "Estamos todos nas ruas porque estamos fartos."

"A onda de indignação e raiva que se desencadeou agora é imparável", afirmou Alicia del Río, porta-voz do Sindicato dos Inquilinos de Madri, que liderou os protestos. "Vamos permanecer aqui" até que o governo aprove novas leis, incluindo contratos de aluguel por tempo indeterminado, e ponha fim a despejos como o de Abascal, acrescentou Del Río aos jornalistas no domingo.

Espera-se que o governo espanhol, comandado pelos socialistas, anuncie novas medidas em sua reunião semanal do gabinete nesta terça-feira, 29.

Despejo 'desencadeou essa agitação social'

No último dia 23, Abascal foi retirada de seu apartamento em uma maca e colocada em uma ambulância, enquanto seus apoiadores - que tentaram, sem sucesso, impedir o despejo - gritavam seu nome.

"Não consegui defender minha casa, mas lutei para que outras pessoas aprendam a lutar pelo que é delas", declarou Abascal em um vídeo gravado de seu leito no hospital após o ocorrido.

Imagens do despejo se espalharam amplamente pela Espanha, intensificando a indignação e as críticas às autoridades públicas e às empresas de investimento imobiliário, acusadas de forçar os moradores a abandonarem suas casas devido aos altos custos. Os críticos costumam se referir a essas empresas como "fundos abutres".

"Maricarmen foi, de certa forma, a gota d'água que desencadeou essa agitação social", avaliou Simón de la Riva, 43 anos, professor que participou dos protestos de sábado.

Em discurso durante um comício do Partido Socialista em Madri, o primeiro-ministro Pedro Sánchez dirigiu-se diretamente a Abascal: "Tenho uma mensagem para você, Maricarmen: o governo está trabalhando sem parar para apresentar um Decreto Real sobre habitação na próxima terça-feira. E peço aos grupos parlamentares que façam um último esforço para que ele seja aprovado no Parlamento Nacional por causa da Maricarmen."

Abascal criticou o primeiro-ministro e o culpou por sua situação. "Ele não percebe a quantidade de despejos que ocorrem diariamente?", questionou durante uma entrevista à emissora estatal espanhola RTVE, um dia antes de ser retirada de sua casa. "Ele não percebe, ou não quer perceber?"

Um lar há sete décadas

A mídia espanhola informou que o pai de Abascal alugou o apartamento pela primeira vez em 1956 e que ela permaneceu lá como inquilina, sob o regime de controle de aluguéis, após a morte dos pais.

O prédio mudou de proprietário em 2018, e Abascal recebeu a oferta de comprar o apartamento, mas não tinha condições financeiras para isso, segundo o Sindicato dos Inquilinos de Madri.

A Urbagestión, um fundo de investimento que adquiriu o imóvel, aumentou o aluguel mensal de 500 euros para 2.650 euros. Posteriormente, reduziu o aluguel para 1.650 euros, valor que Abascal ainda não conseguia arcar com sua aposentadoria, informou o sindicato.

Aumento dos custos e crescente escassez de moradias

O aumento dos custos e a escassez de moradias excluem muitos espanhóis do mercado, apesar do forte crescimento econômico da quarta maior economia da Europa. A renda não acompanhou o aumento dos custos de habitação, e analistas afirmam que o turismo e o crescimento populacional impulsionado pela imigração nas cidades exerceu ainda mais pressão sobre a oferta limitada de moradias.

O Banco da Espanha estimou que o país tinha uma escassez de cerca de 550 mil moradias no ano passado, sendo que Madri, Barcelona e Valência representam uma parte significativa desse total.

As manifestações na emblemática praça de Madri neste fim de semana lembraram a muitos na Espanha os protestos históricos que tiveram início em 15 de maio de 2011, quando membros do "movimento dos indignados" acamparam por 28 dias seguidos, gerando protestos semelhantes em todo o país e no mundo. Esse movimento foi uma reação aos despejos e a outras questões surgidas em decorrência de uma crise econômica global, incluindo desemprego, medidas de austeridade e corrupção.

A Espanha ocupa algumas das últimas posições entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em termos de habitações públicas subsidiadas para aluguel, que representam menos de 2% do parque habitacional do país. A média da União Europeia é de 8%.

Novo decreto

Após duas noites acampados no centro de Madri, os manifestantes contra a crise imobiliária prometeram nesta segunda-feira "continuar pressionando" o governo de Pedro Sánchez, de quem exigem uma nova lei que proteja as pessoas contra a escalada dos preços. No entanto, o texto não tem garantias de ser aprovado no Parlamento, onde não conta com maioria.

Os protestos seguiram Sánchez até Barcelona, onde um grupo de manifestantes bloqueou parte da Avenida Diagonal, onde o chefe do governo espanhol compareceu à cerimônia de entrega de prêmios do jornal La Vanguardia.

Com faixas com a mensagem "Decreto Maricarmen já" e slogans como "os investidores são os invasores", os participantes da marcha relataram as dificuldades para ter acesso à moradia.

Em dez anos, o preço médio do metro quadrado de aluguel na Espanha dobrou, alcançando 15,1 euros/m² em agosto, segundo o portal imobiliário Idealista. Na compra, o valor está agora em 2.355 euros, um aumento de mais de 50% no mesmo período, de acordo com dados oficiais.

*Com informações de agências internacionais.

*Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.