POLÍTICA

Diálogos apontam possível fraude de R$ 5,2 bilhões em Bauru

Investigação revela conversas que envolvem ex-chefes da prefeitura em suposta tentativa de licitação fraudulenta.

Por Estadao Conteudo Publicado em 22/09/2026 às 20:00
Reprodução / Agência Brasil

Os promotores da Operação Cavalo de Troia, em investigação do Ministério Público de São Paulo, indicam uma tentativa de fraude em licitação ambiental que soma R$ 5,2 bilhões. Diálogos resgatados mostram a infiltração de um grupo na prefeitura de Bauru, interior do Estado. "Eu também tenho amigo, mas ele também quer ganhar, né Hamiltinho, todo mundo é sanguessuga nessa vida", afirmou Cilene Chabuh Bordezan, então chefe da Secretaria do Meio Ambiente, em conversa via WhatsApp com Hamilton Libório Agle, CEO da Estre Ambiental, referindo-se ao advogado Vitor João de Freitas Costa, ex-secretário municipal dos Negócios Jurídicos. Todos os três estão presos desde o dia 9.

O Estadão buscou os posicionamentos das defesas de Cilene e Hamilton, mas ainda não obteve respostas. Também está em contato com a defesa de Vitor Costa. O grupo foi exonerado de seus cargos por ordem da prefeita de Bauru, Suéllen Rosim (PSD), que não é alvo da operação.

A Estre Ambiental informou que "está acompanhando os desdobramentos do caso e reafirma seu compromisso com a ética e a transparência, colaborando com as autoridades competentes". A prefeitura de Bauru ressaltou que "respeita integralmente a atuação do Ministério Público e as investigações", colocando-se à disposição para fornecer documentos e informações. A administração enfatiza que "não há qualquer indício de envolvimento da chefe do Executivo".

Os diálogos mostram Cilene e Hamilton discutindo os passos necessários para perpetrar a fraude e garantir um contrato de trinta anos para saneamento e coleta de resíduos em Bauru. Medo com a análise do Tribunal de Contas do Estado sobre o edital foi evidente, uma vez que a Corte já havia suspendido a licitação por suspeitas de direcionamento à Estre Ambiental, conforme informado pela Promotoria.

Em conversas de 2 de setembro, a secretária do Meio Ambiente e o empresário discutem Vitor Costa, insinuando seu interesse pelo dinheiro. Na residência de Costa, foram encontrados R$ 240 mil em espécie no dia em que a operação foi deflagrada.

"Eu falo: é impressionante como a gente é cercado de vampiro", relatou Cilene a Hamilton. "Sabe, eu não preciso desses caras, se você tiver que pagar, a gente paga um pedágio a menos, né, p*! Eu fico puta com essas coisas! Tudo, tudo é dinheiro, tudo a gente sabe que o mundo gira no dinheiro, mas (...)".

Vitor Costa estava em São Paulo com o objetivo de tentar reverter uma barreira do Tribunal de Contas que havia indicado cláusulas restritivas no edital 344/2026, concebidas para favorecer a Estre Ambiental, segundo a Promotoria.

No diálogo, Cilene e Hamilton comentam que "Vitor falou que amanhã está lá no Tribunal de Contas pra conversar com quem precisa. Se ele vai conseguir ou não, não sei, mas na terça-feira eu já me garanti né". Hamilton respondeu: "Tá ótimo, tá ótimo. Se ele conseguir é o ideal, né". Cilene acrescentou: "(...) Mas ele não quer fazer oficialmente, ele quer ir pelos amigos dele, e amigo dele tem preço e custa caro".

A investigação ressalta que Costa teve um papel central na trama devido à sua função pública e sua "capacidade de interferência no procedimento". Como secretário dos Negócios Jurídicos, ele dirigia a Procuradoria-Geral do Município.

O projeto teve autorização legislativa, estudos técnicos, modelagem econômico-financeira, consulta e audiência pública, além de elaboração do edital, do Termo de Referência e dos anexos. O Edital nº 344/2026 comprova que sua aprovação ocorreu com o parecer da assessoria jurídica do Município, conforme exige a Lei nº 11.079/2004 (Nova Lei de Licitações).

"A posição de Vitor confere-lhe capacidade institucional para examinar a juridicidade da modelagem, orientar outras entidades municipais, ajudar na análise das impugnações e contribuir para a definição da resposta administrativa aos questionamentos sobre o edital", sustentou a Promotoria.

A prisão temporária de Vitor Costa solicitada pela Promotoria, no início de setembro, destaca que sua "posição estratégica e suas ações recentes" tornavam a medida imprescindível. O juiz Josias Martins de Almeida Júnior, da Vara das Garantias em Bauru, decretou a prisão preventiva de Costa, Cilene e Hamilton, além de outros três investigados.

A Promotoria alega que Vitor Costa estava no "núcleo administrativo" que se organizou na prefeitura de Bauru, detalhando que sua contribuição ao projeto, que visa uma concessão de trinta anos e valor bilionário, requeria um exame jurídico minucioso dos documentos e procedimentos.

Foi descoberto que Vitor teve reuniões reservadas com integrantes do grupo empresarial interessado na concessão e era fundamental na definição da estratégia para responder aos questionamentos contra o edital. Em 4 de agosto, ele participou de um jantar no Le Vess Bistrô em Bauru, junto com Hamilton Agle e Cilene, com uma conta total de R$ 1.893,87, paga pelo executivo da Estre.

No dia seguinte, Costa se reuniu no Ravih Rooftop com o CEO da Estre Ambiental, Cilene e outros alvos da investigação.

O juiz Josias Martins de Almeida Júnior reiterou que "a relevância de sua atuação não decorre apenas de sua posição, mas também da sua participação em encontros fora dos canais administrativos habituais".

A Promotoria constatou que a presença de Vitor Costa em reuniões consecutivas mostra uma atividade que ultrapassa simples contatos ocasionais. Sem registros claros desses encontros, levantou-se a questão de sua legalidade e formalidade nas negociações.