Lula critica Trump e discute eleições na Assembleia-Geral da ONU
Discurso do presidente brasileiro destaca a soberania e traz preocupações eleitorais.
Em seu discurso na 81ª Assembleia-Geral da ONU, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva procurou antagonizar com o presidente norte-americano Donald Trump, combinando ideias tradicionais da diplomacia brasileira com o contexto eleitoral das eleições de 4 de outubro. A fala de Lula abriu o debate pela manhã e foi seguida pelo discurso de Trump.
Especialistas ouvidos pelo Estadão afirmam que Lula tentou se colocar do lado oposto dos EUA quanto à sua política externa e à forma como os países têm se posicionado diante de conflitos e crises globais. Além disso, a menção às eleições indica uma preocupação com o cenário do próximo mês.
Na última pesquisa Quaest, divulgada na segunda-feira, 21, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados, com 42% para o petista e 41% para o candidato do PL.
Em um cenário pouco usual para trazer suas propostas de campanha, Lula comentou o fim da escala 6x1 e empregou uma retórica que buscava opor a democracia ao negacionismo.
"Não se previa uma menção tão clara ao processo eleitoral, ou até mesmo ao adversário, ainda que não nominalmente. Do ponto de vista político, o presidente sabe que a tribuna da ONU é um instrumento de contato direto com os eleitores. Abordar o tema eleitoral e o adversário de forma explícita não é costume do próprio presidente em seus discursos na ONU. Por isso, essa menção revela a ânsia, até mesmo uma desesperança eleitoral, de deixar uma mensagem clara ao eleitor em uma plataforma pouco usual para isso", afirmou Lucas de Souza Martins, pesquisador da Temple University, ao Estadão.
No início do discurso, Lula endereçou uma mensagem ao secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmando que a organização vive seu momento mais crítico, criticando o Conselho de Segurança pela falta de ação efetiva nos conflitos em nível global. Ao citar guerras e conflitos, o presidente destacou que "as concessões à lei do mais forte já passaram dos limites".
Sem mencionar diretamente o presidente americano, Lula ressaltou que devemos optar por "soberania ou subordinação", direcionando sua fala a Trump, segundo especialistas. Além de criticar a postura americana em conflitos no Oriente Médio, Lula também abordou como os EUA buscam uma maior interferência nos processos democráticos da América Latina.
"É um discurso cuidadosamente desenhado para posicionar o Brasil como antagônico aos EUA, especialmente a Donald Trump. A fala de Lula mapeia praticamente todos os conflitos com envolvimento americano. Brasília, conforme Lula expressou, não se alinha à Casa Branca em nenhum deles", complementou Martins.
Para Cristina Pecequilo, professora de Relações Internacionais da Unifesp, a mensagem sobre a política externa brasileira manteve o mesmo tom dos discursos anteriores de Lula na ONU, acrescentando o tema da segurança, em um momento em que os EUA pressionam países latino-americanos a combater grupos narcoterroristas e frequentemente tentam liderar operações de apreensão.
"Foi um discurso bastante sereno, mas afirmativo, no sentido de manter as linhas clássicas tradicionais da diplomacia brasileira, de defesa do multilateralismo e dos direitos humanos, sem deixar de criticar as Nações Unidas e sua necessidade de um posicionamento mais firme", apontou Cristina. "Do ponto de vista da pauta internacional, houve uma questão bastante relevante também sobre a soberania brasileira, sobre o hemisfério americano e a forma de lidar com os desafios de segurança país a país, mas também em cooperação, sem a necessidade de imposição".
Vinicius Vieira, professor de relações internacionais da FGV, destacou que a fala de Lula ocorreu de acordo com o que se esperava. "Podemos salientar o paralelo que ele fez entre multilateralismo, democracia e soberania, associando esses três elementos – uma espécie de doutrina que informalmente tem guiado o terceiro mandato do presidente e deve também guiar o quarto, caso ele seja bem-sucedido na reeleição", concluiu.